avatar

03:00 a. m.
avatar changed

you never told me about
change
I understood stillness
as an imaginary place
between voice and silence
whenever
my voice’s still stifled
and your silence
keeps on filling the void

avatar’s fading
blinks an eye
silence is complete

you never told me about
this condition
of the heart
whenever my voice is caged
no way to find
much needed keys to spell
how my legs trembled
why my body shivers

avatar’s changing
to a red dot
of despair.

a utilidade das coisas

um dia fartou-se. deixou um bilhete – coisa admirável de deixar para trás – e durante muito tempo ninguém ouviu falar dele. desceu o continente até uma terra fria e lendária onde ainda viviam indígenas brancos como espíritos que adoravam o fogo e se cobriam de cinzas. dessa viagem surgiu um livro estranho e simples, poético e pragmático, repleto de histórias inverosímeis e de buscas inúteis. um livro maravilhoso justamente por se estender como um manto de realidades indistintas da mentira, verdade e ficção perfeitamente cerzidas uma na outra. por tal não passar despercebido aos mais inflexíveis de consciência, é desprezado na mesma medida em que outros o amam. não ignoremos pois quão desconcertante é a promiscuidade que fomentou entre o fidedigno e a fantasia. e em que medida cada uma destas coisas habita dentro da outra. como tudo se funde e mistura e, mais surpreendente ainda, como precisamos deste alter ego existencial que flutua ao mesmo tempo que nos pesa sobre a cabeça. o poeta é um fingidor – finge porque ondula como um peixe, à vontade, num oceano de densos e profundos sentidos. o escritor mente e arrasta-nos com a sua mentira até à mais longínqua extremidade de um irreconhecível continente. onde passamos frio e medo e fome e desconsolo. enquanto as cinzas nos alimentam e aquecem e as buscas inúteis nos tornam poderosos e invisíveis.

chuva de verão

ontem torrámos ao sol e hoje temos uma inesperada chuva de verão. uma coisa miudinha que pagamos com a economia do descanso. a desusada sesta antes do meio dia, mãos inquietas e fundos de armários, jogos traquinas carcomidos pelos bichos. deixámos a chave sobre a mesinha e os pneus assobiando na calçada. o asfalto está morno e peganhento. uma mãe chama de dentro para fora, mas os verões passam e as crianças partiram com eles. sobram ecos e vens à janela fechar a portada. enxotar a luz e serenar a casa. pegas no livro que trouxeste para a praia e deixas cair a cabeça para trás, de espanto. os pés ficam irremediavelmente frios e há uma luzinha que se acende e apaga no horizonte. perguntas “já está?” e não ouço nada. tomo-te o pulso e respondo “já.” acreditas em mim, fechas os olhos e ris-te muito. “queria estar agora na Cochichina.” que parvoíce! lá estão 35 graus e o céu está branco de tanta humidade. “queria”, repetes como um mantra. sabes que a tarde virá sem dizer nada.

cinza

cinza

espalhada pelo chão
a meio da distância

meio milímetro de sobras
do ar que ardeu

densidade do fogo
extinção dos gestos

margens firmes
garantia de regresso

sinais para conduzir
alguém que existe

à prisão do amor
e da vontade

espelho ingénuo
dos teus passos

entrada da casa
ao crepitar da noite.

jerricãns

está tudo calmo, acreditem
[não precisam de se incomodar e ir ver]
não há filas nos postos de abastecimento de combustível
um ocasional automóvel ou outro
a ambulância que precisa de atirar o moribundo, com pressa, para mais perto do seu destino
o carro do polícia que irá esperar pacientemente à porta da esquadra pela desusada ronda da noite
um turista que não sabe como abrir o tampão da gasolina
e tem de partir para parte incerta
é domingo de manhã com o céu interceptado por andorinhas numa dança mais aérea que acrobática, e pouco mais
os jerricãns descansam na garagem ou no vão da escada
os depósitos estão contentes e cheios
[quem não se alegra com a barriga referta?]
até as redes (in)sociais estão mais para o estacionário
vamos todos à praia, se pudermos
e amanhã descansaremos das férias
ou atacaremos o trabalho com afinco
afinal, acabámos todos por atestar o carro
e agora, cumprido o nosso dever para com as máquinas e o mundo,
podemos perdoar o animal agitado
o mercedes de matrícula K que estava seco há vinte anos
o caixeiro viajante
a menina Dulce e o seu cinquecento
é bom quando tudo se cumpre e os alísios sopram sempre para o mesmo quadrante
se a bonança não confirma nem desmente a tempestade
quando os homens se sentam à mesa para almoçar ou jantar
e acordam produzir mais riqueza ao invés de ricos
ou em contentar as partes, pelo mínimo
está tudo bem
se cumprimentas o teu vizinho pela tarde
e guardas um jerrican para afagar pela noitinha
enquanto mergulhas na rede santa e universal
e digitas “animal”
está tudo calmo, por enquanto, acreditem
[não precisam de se incomodar e ir ver].