ibn Qasi

diziam que o alaúde se ouvia no meio do pomar, do lado de lá do rio, nas noites frias, como uma alma encantada
que havia secado como um barco abandonado, um casco ressequido de uma nau ainda por inventar
que havia um cheiro a canela, impossível, e cor de sangue em vez de ouro e que, estranhamente, o luar se apagava subitamente
ali
ibn Qasi
que os teus poemas eram ditos, indistintamente, amaldiçoados poemas mortos na ponta de uma língua já dormente
ibn da luz do sol
do sul
do amor
o que os teus poemas diziam
que nem sabias cantar…

die neue Mauer

se estiveres na capital [do império imperfeito], segue a marca no chão, sem lógica aparente, que atravessa ruas e praças e avenidas obliquamente, que revela em silêncio o labirinto impossível de uma geração rasgada ao meio pela estupidez humana. e procura entender o porquê de por vezes terminar junto a uma parede e surgir de novo do outro lado de um edifício e cruzar jardins e seccionar janelas de vidro como uma lâmina aguçada que não revela o seu propósito. e repara, como agora, o vento circula livremente por cima dessa linha, a única vontade que não intersecta.

melancolia

se o espaço não fosse vazio e amplo e tão amplo assim por não se encher de nada e o nada ser já muito ou mesmo demasiado para preencher o que de coisa nenhuma se enche diria ser o centro da cidade em falta porque se esvaziou e aguarda em vão que todos regressem. mas não sei se sou ou se o que sinto é a tarde tempo suspensa ou as ruas espaço que aguardam sem sentido. porque o sentido e a necessidade e a coragem para algo que começa assim é tão só a melancolia – uma forma benévola e até poética de dizer que estamos consternados mas ainda sem o desespero derradeiro e absoluto de estarmos desesperançados e com disposição para um qualquer fim. e também sem vontade de cura já que daqui a pouco o tempo avança como sempre afinal e vamos na corrente que decerto será a corrente de um tempo mais feliz. e porque de repente tudo se poderá encher de gente e de ecos de ecos que trazem consigo, num ricochete de esperança, novelos de alegria. o que me parece no final é que a solução reside sempre fora deste invólucro oco e sem vontade, balão que se libertou das mãos incertas de uma criança difusa, um traço, a quem nem sequer ocorreu chorar e revoltar-se. e se a cidade é isso o céu fecha-se como uma cúpula sobre a tarde despida. e o grito não volta nem se afasta de mim.

3 english poems

is someone out there?
how can I reach existence
if there are no red dots
counting solitude in numbers?
how many times
do I need to return
to no man’s electronic land
just to to be sure I’m alive?
how can I know
I’m still here?


storytelling keeps in flux
a procedure of survival mode
and each tale soothes
the things we left for tomorrow.


untag me
untag my feet 
untag my shoes
untag my words

be with me in the bare circle of blindness 
feel no colors
we will find the way to the center
the kept peace in the void.

Antígona

porque tiveste o ânimo e a força para transportar a morte para longe
como se houvera em ti uma torrente de vida
em vez da impossibilidade de um deserto
e uma dor bem mais leve
que a lage de um túmulo

porque tiveste clareza nas mãos
para cavar mais fundo do que os olhos conseguem ver

e dilaceraste as leis
com a fúria de um filho que quer à força nascer

voltas a casa digna do silêncio

para comer da justiça
o pão ázimo

e enfrentar no espelho a fronte bela
talhada para morrer.

o último festival da vida

subtilmente, ou nem por isso, os poetas vão sendo atacados, também, pela ordem do dia, sinais do tempo, ou, dito ainda de outra forma, pela psicose contemporânea da igualdade de género: já não há poetisas como hoje constatei num festival poético (a sardinha, a batata doce e o folar de Olhão distribuem-se por outras datas do calendário festivaleiro). não chove a sul, as barragens estão a secar e estamos num outono primaveril mas há poesia na rua: em 57 bancos de jardim e nas gargantas dos poetas. a rua, denominada do comércio, com a sua bonita calçada portuguesa extraordinariamente gasta (ou polida, se preferirem), muito, muito traiçoeira em dias húmidos, acolhe uma boa vintena de poetas do mundo em meia dúzia de mesas de café. simples no trajar, bem dispostos e claramente representantes do espectro: assim-assim; bons; muito bons; excecionais… democracia, democracia em frases cortadas na forma de versos livres. o magrebino encantou com uma espécie da melodia do deserto (foi o que escutei da sua voz indecifrável) e a indiana, pequenina e escura, encheu-me de lucidez e claridade (obrigado Sujata). e os outros deambularam por palavras bonitas, sentenças curtas e finais súbitos e inspirados. enfim, poetas. homens poetas. mulheres poetas. alheios a tudo isto, ou talvez não, passam os locais, os turistas, os expatriados, os bem vestidos, os maltrapilhos, os atarefados, os alheados… os mirones. um drogado esgueira-se por entre dois poetas (homens poetas) e vai buscar os instrumentos do seu ofício/vício que tem escondidos num recanto. a sua epifania… viro-me e apercebo-me da escuridão, da sujidade e do cheio intenso a mijo. uma mulher pobre, curvada pela vida, para e fita a corte com ar de profunda incompreensão. os seus lábios mexem-se numa ladainha inaudível que dura um minuto. não a ouvi, mas sei que era um poema.

filho de 8 cidades

encontrou-se sozinho de frente para a êxedra no exato lugar onde outrora fora floresta e pântanos. uma coisa bela por si só e isolada naquele local como que caída do Olimpo, sem semelhança com nada que se recordasse. estava cansado da viagem e sentia, pela primeira vez, que a jornada começava a devolver-lhe nos músculos e nos ossos, a distância e a demora. era cego de um olho e o que lhe sobrava lacrimejava. teve tempo para voltar muito atrás, até à recordação que mais o assombrava. vivia nele o som nítido do seu primeiro choro e o rosto murcho da parteira que era cega e bêbeda. disseram-lhe que demorou a chegar e que por isso nasceu mais roxo que os demais. assim lhe justificavam a vista morta e a perna manca. mas sempre fora um homem feliz. a mais feliz das parteiras ajudara a vir ao mundo o mais feliz dos homens.
ninguém aparecia, por enquanto, e não parava de cogitar fazendo e refazendo as ilíadas e as odisseias, pensando sempre nos pormenores que iria acrescentar. não era um mero papagaio habilidoso como os que ouvira em criança mas aprendera deles as histórias e estava grato por existirem papagaios neste mundo. e ouvidos para o escutar, mesmo que hoje tardassem em chegar. a demora, não a dos ossos, a dos outros, deixava-o sempre ansioso e o dom da palavra misturava-se com o hábito pernicioso de tocar insistentemente no sexo como que para aliviar uma moinha da alma para a qual não tinha nome. fora isto, era conhecido pela pederastia determinada, pelo onanismo devoto e pelas piadas ordinárias. controlava-se até ao cansaço para não apalpar crianças e mulheres em público e, para não explodir por dentro, chamava maricas a todos os homens maduros. era assim o mais feliz dos homens.
finalmente apareceu um, dois, pequenos grupos, na galhofa, gritando, contando anedotas, apalpando-se uns aos outros, bêbados, coxos, novos, velhos, mães, filhas, grávidas, viúvas, um leproso disfarçado, escravos com os seus amos, dignatários, mendigos, homens ricos e estropiados da guerra. parou de se tocar e acalmou-se. por fim, a razão de ali estar. a prova de ser, ainda, o mais amado entre os helenos. esboçou um sorriso perspicaz, cofiou a barba e o olho babado tornou-me felino e matreiro. olhando em volta começou a perscrutar os rostos que tinha à sua frente, a pesar-lhes o caráter, a avaliar como eram os seus dias, o que encobriam em público e vomitavam em privado. colocou-se então no centro geométrico do recinto e levantou a mão esquerda com autoridade. todos se calaram. “Hélade, que história quereis? A do lacedemónio cornudo ou a da rainha que experimentou todos enquanto o rei andou embarcado na volta da guerra? Ou quereis umas anedotas para aquecer?” o burburinho da discórdia tornou-se ensurdecedor mas no meio da algazarra uma voz destacou-se: “Oh Mero, a que quiseres, a que quiseres!”