rotação I

sou um ponto móvel
nem um lugar, nem um tempo (in)exato
nem uma mutação
nem perene nem constante
imutável na intrínseca deslocação
tal como a casa
o lugar não lugar que habitei
no instante em que foi casa
a casa que fui e que volta sempre
onde posso viver para sempre
autoctone ou estranho
estranho inter pares de mim
estranho como os demais
demasiado estranho para mim
sou a cidade que transita
que trespassa a imobilidade
tão imobiliária como os resíduos 
atómicos, nucleares
mascarados pelo tempo e pelo espaço
hipo-simplificado-hiper
do desenraizamento aéreo
pautado pela negação de si
do ponto imóvel que fui
antes da rotação impossível
sobre o eixo possível de mim.

Darjeeling

cruzei-me com seres estranhos, meus irmãos, por sinal, chegados de um lugar onírico que o homem habita mas não transforma. lugar de sonhos que se tornam visíveis à medida que caminhamos e rodamos sobre os nossos próprios pés. tão mais líquido que aéreo, surdo e esbranquiçado como o céu leitoso de um país tropical. onde os rios violentos, que descem, são lagos, por fim, e nos verões que não terminam banham-se crianças que nunca crescem. onde os longínquos gritos dos pavões cortam o ar vermelho do fim da tarde, conjurando as nuvens no céu. onde o resto do mundo é somente uma possibilidade, se existir, afinal… seres de olhos negros e pele cor de mel que vivem onde tudo se incendeia pelo odor e humidade dos séculos. o chá desce das montanhas à noitinha, porque está escrito assim. o vendedor de peles regateia a última rupia com um balançar da cabeça. o interior de cada casa ilumina-se para apaziguar os anelos de Xiva. fecham-se gentilmente as portadas aos demónios, deixando-os lá fora. e nada mais se move em cada morada do que a mão que fala do cansaço e a boca que vai excitar o fogo, com amor.

dicionário

as linhas que se seguem não são habituais aqui. mas são absolutamente necessárias, pelo menos para mim.

antisemitismo – oposição aos semitas (judeus, em particular).

antissionismo – oposição ao estado judaico da Palestina.

as duas ideias acima são demasiadas vezes utilizadas, erroneamente, com um sentido sobreposto e/ou equivalente. a primeira pressupõe um preconceito racial ou étnico, religioso, cultural, etc, ou seja, racismo puro e simples. algo de que urge afastar-nos e que devemos condenar. a segunda traduz uma posição essencialmente política, ou mesmo, indo um pouco mais longe, ética. isto quer dizer que, ser contra o estado de Israel tal como o mesmo hoje existe, e se assume, não equivale a desejar a extinção do povo judaico. mas do contrário muita gente nos quer fazer crer. e pela repetição dessa falácia se vai embotando o pensamento e intencionalmente nublando o entendimento do mundo que exigia ser mais claro – uma necessidade imperiosa dada a inerente complexidade do mesmo.

na última quarta-feira um assassino e profeta desta mentira esteve em Lisboa a desenhar um roteiro para a guerra e foi recebido pelos nossos governantes. porque me envergonho disso, escrevi isto:


a missão do assassino é cegar-te
confundir os teus ouvidos
coser-te a língua com a corda que tu próprio urdiste
agarrar nas tuas mãos com as tuas próprias mãos
e proibi-las de fazer
tornar os teus passos tão pesados
que temas e desistas do caminho

a missão do assassino
não é matar-te

mas fazer de ti um assassino
que mata
com o seu próprio silêncio.

1984

agora que a América envelheceu de vez e, cansados da vigília da cidade impossível, Jane e Hunter voltam, reconciliados, à campa de Travis. estáticos e em movimento, arremessam à estrada a nudez dos seus cabelos louros e a beleza dos lábios intensamente vermelhos. um deserto de cada lado, e os falcões da noite deslizando silenciosamente por cima. e um fogo que arde incessantemente no horizonte e que os impede de voltar a casa. presos, com os dois rostos sobrepostos na superfície polida da lápide de granito, abraçam-se para que não se rasgem na violência dos grandes viadutos. atirados em direções diferentes, o destino que antes tinham pela frente dispersa-se agora na distância de todo o caminho já percorrido. cada um seguirá, forçosamente, um rumo diferente. uma e outra vez. Jane, mãe de um só filho. Hunter filho de dois pais. a mãe atrás de um espelho.

cavalos

os cavalos crescem selvagens nas colinas
e quando regressam pelas mãos dos carcereiros
têm o pêlo baço e feridas rasgadas por espinhos

as raparigas andam descalças por entre o musgo
e riem-se como ninfas junto à água

agora as bestas serão amansadas
e apertados os freios por entre os dentes

enquanto aguardam pela paz da pele humana
e pela fuga durante a noite.