dicionário

as linhas que se seguem não são habituais aqui. mas são absolutamente necessárias, pelo menos para mim.

antisemitismo – oposição aos semitas (judeus, em particular).

antissionismo – oposição ao estado judaico da Palestina.

as duas ideias acima são demasiadas vezes utilizadas, erroneamente, com um sentido sobreposto e/ou equivalente. a primeira pressupõe um preconceito racial ou étnico, religioso, cultural, etc, ou seja, racismo puro e simples. algo de que urge afastar-nos e que devemos condenar. a segunda traduz uma posição essencialmente política, ou mesmo, indo um pouco mais longe, ética. isto quer dizer que, ser contra o estado de Israel tal como o mesmo hoje existe, e se assume, não equivale a desejar a extinção do povo judaico. mas do contrário muita gente nos quer fazer crer. e pela repetição dessa falácia se vai embotando o pensamento e intencionalmente nublando o entendimento do mundo que exigia ser mais claro – uma necessidade imperiosa dada a inerente complexidade do mesmo.

na última quarta-feira um assassino e profeta desta mentira esteve em Lisboa a desenhar um roteiro para a guerra e foi recebido pelos nossos governantes. porque me envergonho disso, escrevi isto:


a missão do assassino é cegar-te
confundir os teus ouvidos
coser-te a língua com a corda que tu próprio urdiste
agarrar nas tuas mãos com as tuas próprias mãos
e proibi-las de fazer
tornar os teus passos tão pesados
que temas e desistas do caminho

a missão do assassino
não é matar-te

mas fazer de ti um assassino
que mata
com o seu próprio silêncio.

1984

agora que a América envelheceu de vez e, cansados da vigília da cidade impossível, Jane e Hunter voltam, reconciliados, à campa de Travis. estáticos e em movimento, arremessam à estrada a nudez dos seus cabelos louros e a beleza dos lábios intensamente vermelhos. um deserto de cada lado, e os falcões da noite deslizando silenciosamente por cima. e um fogo que arde incessantemente no horizonte e que os impede de voltar a casa. presos, com os dois rostos sobrepostos na superfície polida da lápide de granito, abraçam-se para que não se rasgem na violência dos grandes viadutos. atirados em direções diferentes, o destino que antes tinham pela frente dispersa-se agora na distância de todo o caminho já percorrido. cada um seguirá, forçosamente, um rumo diferente. uma e outra vez. Jane, mãe de um só filho. Hunter filho de dois pais. a mãe atrás de um espelho.

cavalos

os cavalos crescem selvagens nas colinas
e quando regressam pelas mãos dos carcereiros
têm o pêlo baço e feridas rasgadas por espinhos

as raparigas andam descalças por entre o musgo
e riem-se como ninfas junto à água

agora as bestas serão amansadas
e apertados os freios por entre os dentes

enquanto aguardam pela paz da pele humana
e pela fuga durante a noite.

sete anos

aos sete anos corri descalço para os braços da minha mãe
com o dorso aberto por onde cabia uma mão inteira

e a minha mãe abraçou-me a mim e ao sangue
a ambos que por entre os dedos lhe fugiam

mas fiquei

e ajudava o meu irmão a montar armadilhas para os pássaros
que soltávamos dentro de gaiolas em cativeiro
e trocávamos como cromos da bola

pássaros que morreram sem o abraço de uma mãe

quando o sangue lhes secou dentro do corpo.

fata Morgana

o que é certo é que partiste daquele ponto que agora consegues avistar, vencida que está, com afinco, a subida. foi logo aqui que te surgiu o ensejo de suspenderes a ida, e olhar para trás. não te acometerá a tentação de Edite nem o castigo das pedras de sal. podes pois correr os olhos por sobre a praia e ainda ver o vestígio dos teus passos a que o mar há de chegar ou o vento desvanecer. a subida doce ao longo da crina da duna, a pedra que se desfez um pouco sob os teus pés, a rocha que segurou o teu pulso e te trouxe cá acima. o que vês na distância consegues mensurar com a esquadria do teu corpo, as pernas ligeiramente fletidas e os olhos cerrados para que nada fuja. é este o lugar de onde se lançou a serpente, no qual a águia virá pousar e por onde terás que descer. que aponta ao horizonte ensinando o caminho que não existe mas que deves seguir. para além onde vês um castelo que não pode ser, de alicerces no ar e ameias no mar, trémulo e acabado de construir. e já o teu vulto partiu e ainda aqui estás de olhos impedidos e mão fremente.