gnómon

convém entender, o arquiteto comanda a mão que domina a linha curva – a linha reta, insensatamente, a mais fácil de desenhar, não existe na natureza (e se pensas no horizonte, enganas-te) -, e dominar a curvatura das coisas – considera o peso da vida [como dobra], os calos na pele – curvos também -, o redondo do coração quando bate – exige talento, disciplina e afinco. e uma mão livre que voa raso como a andorinha que se nutre, gestos soltos, dedos alados, pois, e fugazes, capazes de agir na extremidade do pensamento. o arquiteto é esse capaz de sonhar a ponte de vidro, a escada que cai para o céu, o jardim que encontras sempre em cada dobra da cidade. o mesmo que dorme com as mãos em concha ao lado do corpo, sobre a cama plana e desconcertante. o que não limpa o carvão da fronte nem pousa a roupa com cuidado no chão e afasta a régua fechando os olhos à sua lógica linear. entende, pois, o alcance e a justeza da sua cegueira e sobretudo como o fez, vazando as órbitas na esfera do sol.

anfiteatro

as grandes cidades estão construídas para a fatalidade dos desencontros. note-se como as pessoas se colocam, perpendiculares à rua, e os que passam paralelos às montras. uma organização do espaço que existe para cortar a intersecção dos olhos. um golpe mineral do qual nascem sonhos de almas gémeas e de paraísos tropicais afogados em copos de papel. talvez se devesse criar transeuntes perpendiculares e montras projectadas sobre os passeios obrigando à colisão dos olhares. tornar a cidade num labirinto de solavancos e encontrões. de dor, talvez, a dor dos corpos que se abraçam.

terra incógnita – prece

oh deus altivo, eu o tolhido junto ao solo, teu inferior, mortal, partilhando a dor com os meus, sob o sol, sem asas para voar, diz-me, onde leva o mar oceano que acordei hoje com este sonho – navegar para além do medo e do aviso que deixaste: tudo era carmim e havia uma extensão de sangue que cobria as águas.

e sobre essa carnificina deixaste mesmo assim um mapa para acirrares o mistério e o desejo que me quebra em dois. sabes dos meus olhos alvoroçados, da mente que não se aquieta, porque razão infligi cortes e se tornaram em troncos os meus dedos. diz-me se é teu o poder que me coage, que desejo é este que me atropela.

porque de ti escuto apenas o silêncio mas há os que dizem que falas através do vento, que nos olhas de dentro das pedras, que estás algures de atalaia. se é isso que queres irei, no dia em que tomar coragem e não me importar se a tua voz crespa e violenta molda a tempestade ou se alisas a superfície da terra como um pai afaga o filho. irei pois. espera.

enquanto nasce a nau com a cor do céu e reuno por companheiros irmãos afoitos que não temem o fim do mundo. e juntamos tudo o que é preciso, até a saudade e o desgosto e a vontade de regressar, e iremos. escreve nas estrelas o caminho e ensina às aves a direção a tomar, dá cheiro às coisas que escondes atrás do horizonte.

traça-nos a certeza da travessia através da escuridão das ondas, por entre tentáculos e o visco das vozes terríveis e celestiais. modorra o sol durante o dia, clareia o céu enquanto dure a noite e cuida-nos dos sonhos. e da lucidez dos olhos para que possamos ver a terra incógnita que se agiganta ao fundo. clara e azul como a água límpida a seus pés.

las meninas

vem comigo ver uma coisa. e correram de mãos dadas. gosto de novidades, sabes bem, e contigo é sempre uma alegria. traz uma moeda nem que tenhas de partir o mealheiro. está ali um homem de barbas com uma caixa estranha. a caixa é de madeira e ele veio de muito longe. parece velho mas não é. repara no que ele faz. tira uma chapa e mete outra. e depois arruma as pessoas numa pose peculiar. parecem soldadinhos de chumbo, todos muito direitinhos. as pessoas fazem fila para experimentar. olha o Jasper com os pais. está muito bonito naquele fatinho de flanela. nunca o tinha visto assim. vamos, vamos as duas mudar de vestidos. temos de combinar mas não em tudo. eu levo a minha fita azul e tu a laranja. vai ficar muito bonito. mostrem lá o dinheiro minhas meninas. muito bem, vamos lá. agora não podem mexer um dedo sequer. nem respirar. imaginem que são dois cubos de gelo muito sossegadinhos no pólo norte.

o artista que não conseguiu explicar

o artista que não conseguiu explicar a arte, nem sequer a uma lebre morta, cobriu a cabeça de mel e a cara com de folha de ouro. trazia no colete uma faca, que ninguém viu, e todas as palavras que disse talvez se encontrem, ainda, no dicionário. à maneira de Jung dividiu a humanidade em doze, até ao último átomo. e continuou a dividi-la até nada lhe acrescentar, como tantos. decompor, ou esconder a cara, não engrandece e muito menos revela. é tudo pois o grande mistério. o todo como repetição do avultado conjunto das partes. a inutilidade de tapar a cara. de nada servir atirar a língua ao majestoso néctar das abelhas…. se a lebre dorme [ou mais do que isso].

três andamentos

  1. o museu foi despojado de todos os quadros. nas paredes encontram-se manchas desbotadas no espaço antes ocupado pelos mesmos. algumas descrições foram mantidas na vinheta ao lado. outras subtraídas. cabe ao visitante formular a sua própria concepção tanto do espaço como das obras ausentes. o museu é a obra de arte em si. o espaço concepcional de todas as possibilidades e interpretações. pormenor não menos importante, isto tem de ser imaginado porque o museu está fechado. o visitante encontra-se na parte de fora, de ingresso na mão. não existe outra forma de acrescentar esta experiência à sua própria existência.

  2. a fotografia é o grande transgressor da história da arte. ao expulsar a arte pictórica do seu pedestal – cedo este seria desamparado também pela escultura – precipitou-a na abstração e escreveu, por conseguinte, o fim da história dessa forma de expressão. um paradoxo e um grande erro, podemos afirmar. justamente, a fotografia pouco é – ou melhor, torna-se indistinta – quando deixa de ser representativa, tudo afinal o que herdou da pintura. sabemos em que dia e hora a primeira morreu. aguardamos com expectativa que a segunda abrace o seu fim.

  3. o que faço eu aqui? o que faço todas as manhãs. visto o meu fato escuro com uma camisa branca e um par de sapatos feitos à medida. posso estar simplesmente sentado na parte mais iluminada da galeria – não se entusiasmem muito com o termo galeria – ou totalmente às escuras. posso estar calado ou aos gritos, tanto faz. por vezes gosto de discursar sobre o assunto que me apetecer. posso ainda nem estar. na galeria ou noutro lado qualquer. sou capaz até, de ser visto de frente, de perfil ou nem isso sequer. gosto de ser imaginado. dá-me prazer mas também me aborrece. tanto trabalho e sou apenas o que sou ou não sou.

atravessar o mar

tudo começou com o teu olhar perdido na ria. tantas coisas a teus pés e eu perdido aos teus pés também. mas há remédios que não curam e olhos que não se fecham nem sossegam. só podia ver-te ao longe segurando o regaço em jeito de pressa mas ainda presa ao chão. sentia que ias, um dia.

mas voltaram as andorinhas e os ninhos de barro e o céu encheu-se de azul mais uma vez. e passeámos ainda por entre as paredes de cimento que cortam a visão do mar e pensava eu, o desejo do mar seria cortado em dois. metade para cada um na medida certa que não aflige nem desfaz.

ofereci-te rosas de cor sem malícia para te alegrar nada mais que o coração e ver-te nos olhos a esperança lá ao fundo que cismava. esperança triste e sem remissão. não refletia em ti porque o amor é egoísta e queima tanto e por dentro que só pensava em grilhões. no fundo, temia.

os meus dias eram um esforço fotográfico para te ter. todos os ângulos, toda a luz, a beleza dos traços, a candura, as sobras e as sombras, o que pelo caminho ias deixando ao abandono. tudo servia para que não fosses nunca mesmo que te fosses pela manhã. a chávena quente, os passos ainda mornos no chão.

todavia, encontrei-te de novo frente à ria. com a mão encostada ao regaço como se não tivesses coragem de o segurar. quiz acreditar que não querias toda a liberdade para os teus pés mas mantê-los cativos sob o peso da tua saia. respirava meramente, e, circunscrito à tua mão, não tive coragem de olhar.

estavas diferente. os olhos azuis haviam assimilado a cor do teu desejo. dentro de ti corriam com força as torrentes do mar. a cabeça estava alinhada geometricamente ao horizonte. e dos lábios emergia um indecifrável poema de terras distantes. decidiras atravessar.

era noite escura como breu. querias arrancar o coração ainda vivo do meu peito. morder as veias e espalhar o sangue sobre a corrente da maré. pediste todas as vezes, até te cansares, que desaparecesse por ti. mas escolhi ficar e conceder que fosses, mergulhando na tua libertação e no teu abismo.

[mas] deixa-me uma lembrança tua.

tudo o que não se diz

submeto-te daqui em diante ao silêncio. silêncio que se solta dentro do crânio como uma incontrolável fera devoradora de meninges, rondando em círculos, alucinada, pisando a papa escarlate do cérebro, empaladora de carne e ossos, esgravatando para sair e se libertar da morte e do tumultuo, já exangue mas tenaz. submeto-te ao silêncio detona cabeças que se desencarcera no mundo como um choro sem tamanho. e que fiques, assim, sem tampo, a ver o céu diretamente. deita fora os olhos! silêncio misturado com o silêncio de todos os homens de cabeça rebentada. incapazes cada um e cada qual de emitir um som que seja mas aptos a ouvir em pleno o cosmos pela primeira vez. são estes os eleitos, guardiões do som da tempestade gravado a ferro e fogo na língua morta.