sinal dos tempos

só os tempos estranhos nos fazem sentir coisas estranhas
neste estranho interlúdio em que vida subitamente desacelerou
que para alguns inclusivamente para
e para outros cessa
apossa-nos a incerteza, a apreensão e o medo
mas no fundo de tudo isto subjaz
um inaudito sentimento de alívio latente
como se repentinamente não tivéssemos mais constrangimento
em reconhecer o cansaço
da velocidade que o mundo imprime à vida
da falta que nos faz esta paz – mesmo que infame e imposta –
que não temos nem sabemos onde encontrar
e que agora nos olha, sentada ao nosso lado,
como a mãe que sorri e acalma a criança inquieta e diz:
– vai correr tudo bem!

all the good and all the forgotten

o rádio era uma pequena caixa de madeira envernizada (devias saber o nome da madeira, só pela cor). tinha botões de marfim estalados tal como estala o marfim. e uma trama de fios amarelos e dourados por detrás da qual saía o som. não me posso esquecer da escala com nomes de cidades distantes (que nesse tempo eram muito mais distantes do que agora). lá dentro nunca soube o que havia. até um dia o rádio cair e a caixa se partir.

o rádio de agora é uma pequena janela montada em quatro rodas que nos diz o nome da música e do cantor. e lá dentro, já sei, está o senhor condutor.

ecce homo

Sam baixou a cabeça e fitou os pés. há muitos dias, como este, que não sabe em que direção os mova. mas não porque se sinta desencorajado ou sem rumo. tudo à sua volta é tão belo que tem dificuldade em escolher. por entre dentes soltou que não conhece o futuro. só pode estar atrás das suas costas. e, pudesse agora fazê-lo, levantaria a fronte e de olhos semi-cerrados confrontaria o passado: a imensidão que se estende à sua frente. o livro acompanha-o sempre, e está à sua direita. é mais sagrado do que todos os livros comprovadamente sagrados. e pousa sobre ele a mão no ângulo certo do saber e da meia idade. sem temor de jurar por ele tudo o que for preciso. não existe nada mais volúvel e mais verdadeiro do que a poesia. um homem, ecce homo, com um corpo extraordinário, só pode morar numa alma diferente. e padecer de um destino inaudito. na mão esquerda uma candeia – na direita já sabemos o que traz – que rasga a escuridão mesmo à luz do dia. pé ante pé olhando as estrelas e anotando tudo nas margens, ou no centro das páginas, como um sol que rasga o plexo da vida. Sam, o homem armilar, dirige-se em todos os sentidos. e se baixa a cabeça é porque há de ver o que está para lá do chão que pisa.

prelúdio

talvez tenha chegado o tempo
para uma poesia singular
agora que o mistério olha para nós
e nos tenta confundir
testando os limites
da sua própria incompreensão.

uma poesia que não seja a dos silêncios
nem das desenfreadas extensões interiores
ou dos céus desmesurados

que se não defina enroscando-se em si própria
nem se justifique com a vacuidade do nada

que façamos a nossa parte
e não lhe chamemos nada disso
ou a conjuremos sequer

porque confrontados com a imensidão
do nosso próprio abismo
que direito nos assiste para encerrar
as palavras num círculo
e chamá-las o quer que seja

soltemos sim a voz
logo que seja manhã e se possa ouvir
por entre o negrume que se esvai

porque o negrume que se esvai
calado encerra
a esperança do mundo.

insanos

ao cair da noite, quando o silêncio uivava lá fora atrás das frágeis paredes e o breu se enchia de milhões de olhos invisíveis e mãos frias e tacteantes desesperavam por pescoços puros e corações palpitantes, juntavam-se muito apertados em torno do lume, de costas viradas para a entrada, sem coragem para voltar a cabeça e antever todo o terror que lhes sobrecarregava a mente. e então, era justamente disso que falavam, em surdina, não fossem impensadamente acordar a treva de todos os monstros e espectros e perigos que nela habitavam, a um palmo da porta, enquanto moviam lentamente as mãos em contraluz deixando os olhos brilhar na semi-escuridão como pequeninas candeias incapazes de dissipar o medo. e tudo o que nunca testemunhariam se agigantava à sua volta num avolumar de formas e de corpos materializados na invisibilidade da luz do braseiro e as cabeças assentiam que sim, as bocas pendiam num esgar de horror, os corpos curvavam-se perante a afirmação de que tudo isso, tão certo como estar ali, existia. e que nada podiam perante tais coisas, quais vítimas já prometidas por um deus calamitoso ao excruciante sacrifício num secreto altar. e desta forma escancaravam a casa e os espíritos até que um forte bate os libertava, gelados e subitamente, deste torpor. e abrindo a porta, com a coragem dos loucos, descortinavam afinal uma figura de aparência humana que logo convidavam a aquecer-se junto ao fogo e a partilhar o caldo aguado e morno mas ainda sem o desassombro e a afoiteza de a testar, de a tocar ao de leve para lhe sentir e confirmar a firmeza da carne e da pele, a consistência dos vivos. e só então, amansada a inquietude e dominados pela indiscrição, alguém por fim perguntava:
– Vós, que vindes lá de fora, contai-nos tudo o que viste!