conformidade

[é assim que queres]
uma língua que não manuseio
morta na cavidade esférica dos livros
de face lívida e olhos plasmados no côncavo das mãos
extirpada como se esventra um inocente

[lamento a recusa]
não consigo soletrar os silêncios
com a mesma voz
entaramelar as palavras
com o mesmo tom
repercutir as tuas páginas
ao vento…

disperso-me e sopro-me
no quadrante cego dos teus olhos
[e é assim que me quero].

dicionário inteiro

perdoa-me,
se esta é a voz dos ecos
que assaltam a morada
onde me escondo
com uma raiva imensa
coalhado no torpor
dos meus demónios
amansados em silêncio
desfiado devagar
desfigurado no ricochete
dos cais abandonados
pelo mar que recede

perdoa-me,
por te faltar a voz
a ferida que fecha
só por fora
a morte sem retorno
de lábios cerzidos
por gritos
e por sombra

perdoa-me,
pelo esgar afinado
que é um mero riso
projectado em frente
sobre pernas que fogem
de alucinação
cujas lágrimas não secam
sobre as mãos
nem adormecem ao vento
que se não levantam
antes da última letra
escrita na pele.

Tokyo hotel

todas as vezes que se encontravam no hotel abjeto ele dizia-lhe “não quero apenas f….., quero fotografar-te!” ela respondia-lhe com uma gargalhada triste. as unhas estaladas, os collants com malhas, os saltos cambados. “o meu corpo sim, a minha alma não!” encontraram-se anos a fio. o mais aberrante dos clichés. duas solidões numa só. acostumaram-se um ao outro. confundiram tudo uma e outra vez. assustaram-se sempre que caíram no equívoco do amor. “Sumisu-san, não quero o 33. já conheço de cor as manchas no colchão.” “Maikeru-san, tem que me pagar o vidro estalado e a tampa da sanita.” um dia meteu-lhe a câmara por baixo do vestido. o flash atravessou-a com um clarão na noite. mantinha os olhos sempre abertos enquanto ele lhe desfiava o corpo. a câmera sobre a mesa de cabeceira. outras vezes enrolada nos lençóis. caída no chão. uma espera sem tempo. “nunca vou fechar os olhos, nunca te vou deixar.” até que um dia – há sempre um dia mesmo quando é uma noite – baixou a guarda e disse “hoje podes.” ele pegou na câmera, tal como lhe pegava no corpo, no limite da força e da ternura, e tirou todas as fotografias que quis, sem errar. mas errou de seguida por não saber calar a dúvida. a incerteza que se insinua. que destrói. que não faz falta. “porque me deixaste?” ela hesitou e respondeu-lhe com um olhar desolado. “sabia que não ias entender. os homens nunca entendem… hoje corri tão depressa para os teus braços que deixei a alma para trás.”

3. coleção de seres extraordinários

há muito, muito tempo, tanto tempo quanto a frágil memória dos homens consegue reconhecer, o fogo subiu apressadamente as escadas, galgou as soleiras das portas, entrou nos vãos mais recônditos, nos quartos de dormir, enrodilhou violentamente as carpetes, gangrenou o papel de parede. expulsou a vida, devorou a luz, suprimiu toda a cor, de vez, e para sempre.

no país que não existe, onde o sol se esconde atrás das montanhas molhadas, a claridade baça não se atreve para além das portadas que (já) não existem e as portas são ombreiras fundas vomitando escuridão.

sobre a mesa, geometricamente ao centro, um altar coberto por uma toalha de plástico, Vladislav colocou uma laranja. uma laranja afogada na sua solidão e esplendor dourado, irradiando luz própria como um objecto estranho e extraterreno.

a partir do seu sofá negro, com os pés sujos pousados sobre as cinzas da carpete, apoiado em unhas de breu, a face enegrecida coroada pelos seus belos cabelos de fuligem e durante muito tempo, tanto quanto a memória de Vladislav pôde suportar, os seus olhos encarcerados de trevas beberam a única cor que existe, no país que (já) não importa.