mapa de uma ilha

se não me engano há uma lei que diz isto: as pessoas deslocam-se em sentido inverso à rotação da terra. como outras leis que determinam uma vocação contrária à força primordial. consideremos pois, que tudo o que lhes resiste é mais forte. se saltamos, mesmo que por breve instante, tão breve que nem se possa regular, seria extraordinário que o mundo se deslocasse de acordo por baixo dos nossos pés. é talvez assim que se misturam os líquidos, os reflexos das nuvens sobre os espelhos de água, a guerra com a vontade da trégua e a calma com a morte quando os alísios decidem descansar. e as ideias também, essas coisas inúteis que viajam nos livros, em bojos de navios, clandestinamente, nas intermitências de luz que passam por baixo dos oceanos. se tudo ficasse quieto, à guisa das fundações das casas de barro, na sombra dos rios que secam, como as pessoas que envelheceram na puberdade, não ouviríamos o roçagar do silêncio contido nem falaríamos soltando as mãos no ar. se não me engano – desta vez -, as leis que vigoram pertencem a peregrinos que as descreveram primordialmente no final de uma circunavegação bem planeada. vi-os regressar e entrar pela porta de trás. a da frente estava fechada pelo avesso.

ne gachez pas notre pourriture

nous sommes les enfants…
nascidos num país de fábulas
que as nossas avós ainda contavam
à luz de candeeiros a petróleo
enquanto o vento uivava lá fora
e a chuva batia nas vidraças

nous sommes les enfants…
que criaram um país de fábula
que é um pano sujo e escuro
que não sabemos como desenrolar
à frente dos olhos dos nossos filhos

nous sommes les enfants…
que rodopiam na umbria das fábulas
enlouquecidos pelo movimento do carrossel
que atordoa com borrões de luz

e gritamos

não apodreçam a nossa podridão!

onde repousa Chatwin (?)

ali,
debaixo da sombra de mil anos
de uma oliveira
está o lugar que apontou
com o dedo ainda firme
e frágil
proferindo uma vontade de deus
a vontade de aqui voltar
depois da vida
carregado por quem tiver a profissão
de o trazer

ali,
guardado pelo calcário cinza
que o sol escalda
e por cardos
outrora marinhos
onde os olhos se transformam em vidro
e a pele em couro
e o passo cala
o ventinho da tarde mediterrânea

ali,
com Delfos e o mundo a seus pés
o mundo que dantes
era o mundo inteiro
dos homens.

picture of you

não há poeta que não sobrevalorize as mãos. mãos para cá e para lá. as mãos que invocam. que seguram o choro para que não caia ao chão. que rasgam. que abraçam com amor (ou com ódio: também é possível abraçar o ódio). que seguram restos durante toda a vida. e a deixam passar por entre os dedos. sem apelo. sem remédio. mãos escravas afinal. só existem para nos servir. lavar. despir. vestir. expurgar da imundície. que só repousam no fim. sobre o peito. em cruz. mãos crucificadas em cruz.

é nestas mãos – não tenho outras -, que seguro o papel estranhamente grosso e lustroso, de uma patine doce e nublada, onde se revela o teu rosto, e mais parece que se esconde. quanto mais olho mais me ilude com a tua imagem, mais doloroso se torna o exercício da memória, mais se apagam os traços, a verdadeira imagem de ti. que inexoravelmente se esfuma e recua para o lugar onde outrora existimos, atrás da curva que se contorce e esconde no verso das casas de fachadas brancas, por detrás das volutas que o tempo dispersou em todos os sentidos.

e então, se este é o derradeiro discurso da verdade – a tua forma, o teu corpo, o teu andamento -, acredito tê-lo preso às mãos – sendo que os olhos me traiem – e agarrando o nada sempre seguro alguma coisa. que o olhar nada mais pode que atravessar a intangibilidade do papel e procurar o ponto fixo do tempo em que fomos. e que dói ter sido e não mais voltar e nem o papel nem a cabeça o colocam mais aqui. seja então salvo, seja, pelas mãos escravas. as mãos sulcadas por sinais na pele e habituadas a nada ser. as mãos que (ainda) seguram o que os olhos atravessam.