o rei é um servo louco

vejo mãos quebradas que nunca aprenderam. de nada lhes serve a membrana que se lhes arrancou. os ossos são ossadas limpas pelo vento ao sol. capelas imperfeitas, o que são. despojos, e arrogantes, na incompletude dos corpos. coisas sempre a caminho de saber com o mundo a rir-se e a fugir por entre os nós dos dedos. e a pele tão lisa por onde se evade o amor.

é sempre demasiado cedo e fica sempre tarde, cedo demais. no processo que avança, ilude-se a decadência com o esplendor. por mais que os alcancemos nunca nos basta a abundância, o entendimento ou a inocência. devíamos existir de trás para a frente. encarar primeiro a morte, saber que o fel cura. abraçar a idade, a ironia e o regresso. e por fim, nascer.

omissão

até que sinta falta da cadeia quebrada desses anos
dos beijos e dos cheiros das outras coisas que nem recordo
do chão do mar
que era tão claro e tão profundo
e do feitiço das ondas em arremesso sobre a praia
da noite selvagem e escura
com um fiapo da nossa canção sobre o ar
das tuas mãos de sal
quebradas no fôlego das fogueiras
e da dança do fogo
devoradora da nossa vaidade

até que sinta falta
da urgência desses anos
desavindos, idos, mortificados
do livro sobre o qual juraste
aberto na página da perda e da quimera
da tua pele de cordeiro
da alvura do entardecer
e do grito de cristal

até que sinta falta
da tua morada
e do teu esquecimento.

avatar

03:00 a. m.
avatar changed

you never told me about
change
I understood stillness
as an imaginary place
between voice and silence
whenever
my voice’s still stifled
and your silence
keeps on filling the void

avatar’s fading
blinks an eye
silence is complete

you never told me about
this condition
of the heart
whenever my voice is caged
no way to find
much needed keys to spell
how my legs trembled
why my body shivers

avatar’s changing
to a red dot
of despair.

a utilidade das coisas

um dia fartou-se. deixou um bilhete – coisa admirável de deixar para trás – e durante muito tempo ninguém ouviu falar dele. desceu o continente até uma terra fria e lendária onde ainda viviam indígenas brancos como espíritos que adoravam o fogo e se cobriam de cinzas. dessa viagem surgiu um livro estranho e simples, poético e pragmático, repleto de histórias inverosímeis e de buscas inúteis. um livro maravilhoso justamente por se estender como um manto de realidades indistintas da mentira, verdade e ficção perfeitamente cerzidas uma na outra. por tal não passar despercebido aos mais inflexíveis de consciência, é desprezado na mesma medida em que outros o amam. não ignoremos pois quão desconcertante é a promiscuidade que fomentou entre o fidedigno e a fantasia. e em que medida cada uma destas coisas habita dentro da outra. como tudo se funde e mistura e, mais surpreendente ainda, como precisamos deste alter ego existencial que flutua ao mesmo tempo que nos pesa sobre a cabeça. o poeta é um fingidor – finge porque ondula como um peixe, à vontade, num oceano de densos e profundos sentidos. o escritor mente e arrasta-nos com a sua mentira até à mais longínqua extremidade de um irreconhecível continente. onde passamos frio e medo e fome e desconsolo. enquanto as cinzas nos alimentam e aquecem e as buscas inúteis nos tornam poderosos e invisíveis.

chuva de verão

ontem torrámos ao sol e hoje temos uma inesperada chuva de verão. uma coisa miudinha que pagamos com a economia do descanso. a desusada sesta antes do meio dia, mãos inquietas e fundos de armários, jogos traquinas carcomidos pelos bichos. deixámos a chave sobre a mesinha e os pneus assobiando na calçada. o asfalto está morno e peganhento. uma mãe chama de dentro para fora, mas os verões passam e as crianças partiram com eles. sobram ecos e vens à janela fechar a portada. enxotar a luz e serenar a casa. pegas no livro que trouxeste para a praia e deixas cair a cabeça para trás, de espanto. os pés ficam irremediavelmente frios e há uma luzinha que se acende e apaga no horizonte. perguntas “já está?” e não ouço nada. tomo-te o pulso e respondo “já.” acreditas em mim, fechas os olhos e ris-te muito. “queria estar agora na Cochichina.” que parvoíce! lá estão 35 graus e o céu está branco de tanta humidade. “queria”, repetes como um mantra. sabes que a tarde virá sem dizer nada.