Libéria

Aos sete anos e três dias foi-lhe arrancado o coração.  A seguir a vontade, a inocência e a humanidade. Indego, hoje vais matar! E trouxeram-lhe de presente o irmão mais novo. Tão prostrado que nem chorava, nem gemia. Faz como te digo. No meio da testa! Ao vigésimo quinto dia, na montanha, tornou-se homem, apesar de tudo. Já sabemos, não pertencendo sequer à sua espécie. O sangue ensopou-lhe o sexo e ele lambeu-o e riu-se. Estava quente. Ainda existiam coisas que o faziam sentir-se vivo. 

Tudo isto são memórias mas, de tão vagas, mais parecem sonhos distantes. Indego não se recorda de alguma vez ter sonhado. Sonhos bons, digo. O crack fá-lo viajar para dentro de um carrocel de silêncio ensurdecedor e isso basta-lhe. Assim se cala o som de 100 000 balas. Assim conduz o cérebro a um simulacro de sono, duas ou três vezes por dia. Um sono febril, agitado, de estertores. Fá-lo num canto imundo de uma campa, com fezes e crânios quebrados aos pés. No cemitério abandonado os mortos não descansam e os vivos trazem a morte guardada no peito.

São todos irmãos mas não os reconhece. Têm todos o mesmo pai e desse pai não sabe o nome. Lembra-se, porém, de uma outra vida, mais feliz. De aldeias incendiadas, de catanas enfurecidas, de cabeças rolando como bolas. De fogueiras e pores-do-sol impossíveis. E de estar preparado para tudo. De não ter medo de nada. Indego, hoje vais matar! Aos dezassete anos e três dias já não tem lugar para ser alguma coisa e as balas continuam a silvar ao lado da cabeça. É a única voz que retém. Todos os outros sons se calaram. Apenas a fúria lhe fala. A última companhia.

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