Abissínia

percorreu as duas últimas milhas a pé. não por necessidade ou expiação, mas por respeito, dizia. não se chega junto a um morto de carro, ou mesmo a cavalo, muito menos de mãos vazias. se nada trazia pegava simplesmente numa pedra que encontrava pelo caminho e colocava-a sobre a campa. como os Judeus, mas por um motivo diferente. sempre por um motivo diferente. não existem duas sepulturas iguais, nem dois caminhos para chegar, até os ossos que lá estão têm as suas particularidades. assim continuou pela azinhaga poeirenta ladeada por muros de pedra baixos. de ambos os lados uma terra calcinada e esquecida por Deus. desta vez trazia um livro na sacola de lona, mas precisava na mesma de uma pedra. colocaria o livro por cima da pedra grande e a pedra pequena por cima do livro. talvez assim o vento não o levasse, menos amolecido ficaria pelo orvalho, não seria cobiçado por um coiote faminto. todas as mulheres são diabos que escolheram ser anjos! – mandaste escrever sobre a majestosa entrada do rancho do sul. foi num dia trágico e belo e estavas toldado por fragrâncias estranhas. por isso vim hoje aqui! – confessou-lhe com as mãos rezando sobre o peito nu. também mandaste escrever, ou disseste, que ao pé de um morto permanecemos calados mesmo que depois festejemos com ele, numa grande farra, tudo o que de ímpio venerou ou matou com os seus próprios dentes – se tempo teve para todos os desejos. são coisas da vida e, depois, quando já não estamos cá, são coisas da morte também. pousou pois a pedra sobre os poemas de amor e ódio e só depois reparou que era um seixo. um seixo encontrado numa terra seca e sem água só pode ser um seixo miraculoso. lia-te um poema dos teus mas sei que não me irias ouvir. sempre foste teimoso e surdo. de certeza que agora não estás melhor. regressou pelo mesmo caminho. não havia outro. tinha duas milhas de pó pela frente e um carro à espera.

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