jerricãns

está tudo calmo, acreditem
[não precisam de se incomodar e ir ver]
não há filas nos postos de abastecimento de combustível
um ocasional automóvel ou outro
a ambulância que precisa de atirar o moribundo, com pressa, para mais perto do seu destino
o carro do polícia que irá esperar pacientemente à porta da esquadra pela desusada ronda da noite
um turista que não sabe como abrir o tampão da gasolina
e tem de partir para parte incerta
é domingo de manhã com o céu interceptado por andorinhas numa dança mais aérea que acrobática, e pouco mais
os jerricãns descansam na garagem ou no vão da escada
os depósitos estão contentes e cheios
[quem não se alegra com a barriga referta?]
até as redes (in)sociais estão mais para o estacionário
vamos todos à praia, se pudermos
e amanhã descansaremos das férias
ou atacaremos o trabalho com afinco
afinal, acabámos todos por atestar o carro
e agora, cumprido o nosso dever para com as máquinas e o mundo,
podemos perdoar o animal agitado
o mercedes de matrícula K que estava seco há vinte anos
o caixeiro viajante
a menina Dulce e o seu cinquecento
é bom quando tudo se cumpre e os alísios sopram sempre para o mesmo quadrante
se a bonança não confirma nem desmente a tempestade
quando os homens se sentam à mesa para almoçar ou jantar
e acordam produzir mais riqueza ao invés de ricos
ou em contentar as partes, pelo mínimo
está tudo bem
se cumprimentas o teu vizinho pela tarde
e guardas um jerrican para afagar pela noitinha
enquanto mergulhas na rede santa e universal
e digitas “animal”
está tudo calmo, por enquanto, acreditem
[não precisam de se incomodar e ir ver].

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