a utilidade das coisas

um dia fartou-se. deixou um bilhete – coisa admirável de deixar para trás – e durante muito tempo ninguém ouviu falar dele. desceu o continente até uma terra fria e lendária onde ainda viviam indígenas brancos como espíritos que adoravam o fogo e se cobriam de cinzas. dessa viagem surgiu um livro estranho e simples, poético e pragmático, repleto de histórias inverosímeis e de buscas inúteis. um livro maravilhoso justamente por se estender como um manto de realidades indistintas da mentira, verdade e ficção perfeitamente cerzidas uma na outra. por tal não passar despercebido aos mais inflexíveis de consciência, é desprezado na mesma medida em que outros o amam. não ignoremos pois quão desconcertante é a promiscuidade que fomentou entre o fidedigno e a fantasia. e em que medida cada uma destas coisas habita dentro da outra. como tudo se funde e mistura e, mais surpreendente ainda, como precisamos deste alter ego existencial que flutua ao mesmo tempo que nos pesa sobre a cabeça. o poeta é um fingidor – finge porque ondula como um peixe, à vontade, num oceano de densos e profundos sentidos. o escritor mente e arrasta-nos com a sua mentira até à mais longínqua extremidade de um irreconhecível continente. onde passamos frio e medo e fome e desconsolo. enquanto as cinzas nos alimentam e aquecem e as buscas inúteis nos tornam poderosos e invisíveis.

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