a ver os aviões

incessantemente, os aviões rasgam o céu do verão indiano que não termina. de manhã está muito frio. a geada cola-se ao restolho do trigo calando a seara destroçada sob um manto de vidro. disseste que este apocalipse era a estação que aguardavas há muito. que querias reaprender os meandros dos meus olhos agora desenhados nas mãos como deltas de um rio. não senti o tempo passar, o silêncio imposto das palavras esquecidas que veio morar entre nós, a falta das tardes dentro do carro olhando a poalha solta pelo vento e o mel da tua pele preso entre os lábios. quero esquecer. nada e tudo. a tábua rasa que tropeçava e ria à tua porta. a inabilidade dos dedos (motricidade fina, como fazes questão de dizer), a impossibilidade dos caminhos, o muro que era o futuro que tinha quando te conheci. somos aquelas linhas não visíveis que as aves deixam no céu e os pássaros de metal imitam. lá no alto, esfarelando-se inteiras, mimetizando o azul perfeito que as não distingue. ainda estamos dentro do carro a ver os aviões, a sentir a poalha e contando as linhas de cabeça apontada para o alto. animais aninhados um no outro, aquecidos pelo calor feroz da tarde que se aproxima.

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