Darjeeling

cruzei-me com seres estranhos, meus irmãos, por sinal, chegados de um lugar onírico que o homem habita mas não transforma. lugar de sonhos que se tornam visíveis à medida que caminhamos e rodamos sobre os nossos próprios pés. tão mais líquido que aéreo, surdo e esbranquiçado como o céu leitoso de um país tropical. onde os rios violentos, que descem, são lagos, por fim, e nos verões que não terminam banham-se crianças que nunca crescem. onde os longínquos gritos dos pavões cortam o ar vermelho do fim da tarde, conjurando as nuvens no céu. onde o resto do mundo é somente uma possibilidade, se existir, afinal… seres de olhos negros e pele cor de mel que vivem onde tudo se incendeia pelo odor e humidade dos séculos. o chá desce das montanhas à noitinha, porque está escrito assim. o vendedor de peles regateia a última rupia com um balançar da cabeça. o interior de cada casa ilumina-se para apaziguar os anelos de Xiva. fecham-se gentilmente as portadas aos demónios, deixando-os lá fora. e nada mais se move em cada morada do que a mão que fala do cansaço e a boca que vai excitar o fogo, com amor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *