atravessar o mar

tudo começou com o teu olhar perdido na ria. tantas coisas a teus pés e eu perdido aos teus pés também. mas há remédios que não curam e olhos que não se fecham nem sossegam. só podia ver-te ao longe segurando o regaço em jeito de pressa mas ainda presa ao chão. sentia que ias, um dia.

mas voltaram as andorinhas e os ninhos de barro e o céu encheu-se de azul mais uma vez. e passeámos ainda por entre as paredes de cimento que cortam a visão do mar e pensava eu, o desejo do mar seria cortado em dois. metade para cada um na medida certa que não aflige nem desfaz.

ofereci-te rosas de cor sem malícia para te alegrar nada mais que o coração e ver-te nos olhos a esperança lá ao fundo que cismava. esperança triste e sem remissão. não refletia em ti porque o amor é egoísta e queima tanto e por dentro que só pensava em grilhões. no fundo, temia.

os meus dias eram um esforço fotográfico para te ter. todos os ângulos, toda a luz, a beleza dos traços, a candura, as sobras e as sombras, o que pelo caminho ias deixando ao abandono. tudo servia para que não fosses nunca mesmo que te fosses pela manhã. a chávena quente, os passos ainda mornos no chão.

todavia, encontrei-te de novo frente à ria. com a mão encostada ao regaço como se não tivesses coragem de o segurar. quiz acreditar que não querias toda a liberdade para os teus pés mas mantê-los cativos sob o peso da tua saia. respirava meramente, e, circunscrito à tua mão, não tive coragem de olhar.

estavas diferente. os olhos azuis haviam assimilado a cor do teu desejo. dentro de ti corriam com força as torrentes do mar. a cabeça estava alinhada geometricamente ao horizonte. e dos lábios emergia um indecifrável poema de terras distantes. decidiras atravessar.

era noite escura como breu. querias arrancar o coração ainda vivo do meu peito. morder as veias e espalhar o sangue sobre a corrente da maré. pediste todas as vezes, até te cansares, que desaparecesse por ti. mas escolhi ficar e conceder que fosses, mergulhando na tua libertação e no teu abismo.

[mas] deixa-me uma lembrança tua.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *