três andamentos

  1. o museu foi despojado de todos os quadros. nas paredes encontram-se manchas desbotadas no espaço antes ocupado pelos mesmos. algumas descrições foram mantidas na vinheta ao lado. outras subtraídas. cabe ao visitante formular a sua própria concepção tanto do espaço como das obras ausentes. o museu é a obra de arte em si. o espaço concepcional de todas as possibilidades e interpretações. pormenor não menos importante, isto tem de ser imaginado porque o museu está fechado. o visitante encontra-se na parte de fora, de ingresso na mão. não existe outra forma de acrescentar esta experiência à sua própria existência.

  2. a fotografia é o grande transgressor da história da arte. ao expulsar a arte pictórica do seu pedestal – cedo este seria desamparado também pela escultura – precipitou-a na abstração e escreveu, por conseguinte, o fim da história dessa forma de expressão. um paradoxo e um grande erro, podemos afirmar. justamente, a fotografia pouco é – ou melhor, torna-se indistinta – quando deixa de ser representativa, tudo afinal o que herdou da pintura. sabemos em que dia e hora a primeira morreu. aguardamos com expectativa que a segunda abrace o seu fim.

  3. o que faço eu aqui? o que faço todas as manhãs. visto o meu fato escuro com uma camisa branca e um par de sapatos feitos à medida. posso estar simplesmente sentado na parte mais iluminada da galeria – não se entusiasmem muito com o termo galeria – ou totalmente às escuras. posso estar calado ou aos gritos, tanto faz. por vezes gosto de discursar sobre o assunto que me apetecer. posso ainda nem estar. na galeria ou noutro lado qualquer. sou capaz até, de ser visto de frente, de perfil ou nem isso sequer. gosto de ser imaginado. dá-me prazer mas também me aborrece. tanto trabalho e sou apenas o que sou ou não sou.

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