terra incógnita – prece

oh deus altivo, eu o tolhido junto ao solo, teu inferior, mortal, partilhando a dor com os meus, sob o sol, sem asas para voar, diz-me, onde leva o mar oceano que acordei hoje com este sonho – navegar para além do medo e do aviso que deixaste: tudo era carmim e havia uma extensão de sangue que cobria as águas.

e sobre essa carnificina deixaste mesmo assim um mapa para acirrares o mistério e o desejo que me quebra em dois. sabes dos meus olhos alvoroçados, da mente que não se aquieta, porque razão infligi cortes e se tornaram em troncos os meus dedos. diz-me se é teu o poder que me coage, que desejo é este que me atropela.

porque de ti escuto apenas o silêncio mas há os que dizem que falas através do vento, que nos olhas de dentro das pedras, que estás algures de atalaia. se é isso que queres irei, no dia em que tomar coragem e não me importar se a tua voz crespa e violenta molda a tempestade ou se alisas a superfície da terra como um pai afaga o filho. irei pois. espera.

enquanto nasce a nau com a cor do céu e reuno por companheiros irmãos afoitos que não temem o fim do mundo. e juntamos tudo o que é preciso, até a saudade e o desgosto e a vontade de regressar, e iremos. escreve nas estrelas o caminho e ensina às aves a direção a tomar, dá cheiro às coisas que escondes atrás do horizonte.

traça-nos a certeza da travessia através da escuridão das ondas, por entre tentáculos e o visco das vozes terríveis e celestiais. modorra o sol durante o dia, clareia o céu enquanto dure a noite e cuida-nos dos sonhos. e da lucidez dos olhos para que possamos ver a terra incógnita que se agiganta ao fundo. clara e azul como a água límpida a seus pés.

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