las meninas

vem comigo ver uma coisa. e correram de mãos dadas. gosto de novidades, sabes bem, e contigo é sempre uma alegria. traz uma moeda nem que tenhas de partir o mealheiro. está ali um homem de barbas com uma caixa estranha. a caixa é de madeira e ele veio de muito longe. parece velho mas não é. repara no que ele faz. tira uma chapa e mete outra. e depois arruma as pessoas numa pose peculiar. parecem soldadinhos de chumbo, todos muito direitinhos. as pessoas fazem fila para experimentar. olha o Jasper com os pais. está muito bonito naquele fatinho de flanela. nunca o tinha visto assim. vamos, vamos as duas mudar de vestidos. temos de combinar mas não em tudo. eu levo a minha fita azul e tu a laranja. vai ficar muito bonito. mostrem lá o dinheiro minhas meninas. muito bem, vamos lá. agora não podem mexer um dedo sequer. nem respirar. imaginem que são dois cubos de gelo muito sossegadinhos no pólo norte.

o artista que não conseguiu explicar

o artista que não conseguiu explicar a arte, nem sequer a uma lebre morta, cobriu a cabeça de mel e a cara com de folha de ouro. trazia no colete uma faca, que ninguém viu, e todas as palavras que disse talvez se encontrem, ainda, no dicionário. à maneira de Jung dividiu a humanidade em doze, até ao último átomo. e continuou a dividi-la até nada lhe acrescentar, como tantos. decompor, ou esconder a cara, não engrandece e muito menos revela. é tudo pois o grande mistério. o todo como repetição do avultado conjunto das partes. a inutilidade de tapar a cara. de nada servir atirar a língua ao majestoso néctar das abelhas…. se a lebre dorme [ou mais do que isso].

três andamentos

  1. o museu foi despojado de todos os quadros. nas paredes encontram-se manchas desbotadas no espaço antes ocupado pelos mesmos. algumas descrições foram mantidas na vinheta ao lado. outras subtraídas. cabe ao visitante formular a sua própria concepção tanto do espaço como das obras ausentes. o museu é a obra de arte em si. o espaço concepcional de todas as possibilidades e interpretações. pormenor não menos importante, isto tem de ser imaginado porque o museu está fechado. o visitante encontra-se na parte de fora, de ingresso na mão. não existe outra forma de acrescentar esta experiência à sua própria existência.

  2. a fotografia é o grande transgressor da história da arte. ao expulsar a arte pictórica do seu pedestal – cedo este seria desamparado também pela escultura – precipitou-a na abstração e escreveu, por conseguinte, o fim da história dessa forma de expressão. um paradoxo e um grande erro, podemos afirmar. justamente, a fotografia pouco é – ou melhor, torna-se indistinta – quando deixa de ser representativa, tudo afinal o que herdou da pintura. sabemos em que dia e hora a primeira morreu. aguardamos com expectativa que a segunda abrace o seu fim.

  3. o que faço eu aqui? o que faço todas as manhãs. visto o meu fato escuro com uma camisa branca e um par de sapatos feitos à medida. posso estar simplesmente sentado na parte mais iluminada da galeria – não se entusiasmem muito com o termo galeria – ou totalmente às escuras. posso estar calado ou aos gritos, tanto faz. por vezes gosto de discursar sobre o assunto que me apetecer. posso ainda nem estar. na galeria ou noutro lado qualquer. sou capaz até, de ser visto de frente, de perfil ou nem isso sequer. gosto de ser imaginado. dá-me prazer mas também me aborrece. tanto trabalho e sou apenas o que sou ou não sou.

atravessar o mar

tudo começou com o teu olhar perdido na ria. tantas coisas a teus pés e eu perdido aos teus pés também. mas há remédios que não curam e olhos que não se fecham nem sossegam. só podia ver-te ao longe segurando o regaço em jeito de pressa mas ainda presa ao chão. sentia que ias, um dia.

mas voltaram as andorinhas e os ninhos de barro e o céu encheu-se de azul mais uma vez. e passeámos ainda por entre as paredes de cimento que cortam a visão do mar e pensava eu, o desejo do mar seria cortado em dois. metade para cada um na medida certa que não aflige nem desfaz.

ofereci-te rosas de cor sem malícia para te alegrar nada mais que o coração e ver-te nos olhos a esperança lá ao fundo que cismava. esperança triste e sem remissão. não refletia em ti porque o amor é egoísta e queima tanto e por dentro que só pensava em grilhões. no fundo, temia.

os meus dias eram um esforço fotográfico para te ter. todos os ângulos, toda a luz, a beleza dos traços, a candura, as sobras e as sombras, o que pelo caminho ias deixando ao abandono. tudo servia para que não fosses nunca mesmo que te fosses pela manhã. a chávena quente, os passos ainda mornos no chão.

todavia, encontrei-te de novo frente à ria. com a mão encostada ao regaço como se não tivesses coragem de o segurar. quiz acreditar que não querias toda a liberdade para os teus pés mas mantê-los cativos sob o peso da tua saia. respirava meramente, e, circunscrito à tua mão, não tive coragem de olhar.

estavas diferente. os olhos azuis haviam assimilado a cor do teu desejo. dentro de ti corriam com força as torrentes do mar. a cabeça estava alinhada geometricamente ao horizonte. e dos lábios emergia um indecifrável poema de terras distantes. decidiras atravessar.

era noite escura como breu. querias arrancar o coração ainda vivo do meu peito. morder as veias e espalhar o sangue sobre a corrente da maré. pediste todas as vezes, até te cansares, que desaparecesse por ti. mas escolhi ficar e conceder que fosses, mergulhando na tua libertação e no teu abismo.

[mas] deixa-me uma lembrança tua.

tudo o que não se diz

submeto-te daqui em diante ao silêncio. silêncio que se solta dentro do crânio como uma incontrolável fera devoradora de meninges, rondando em círculos, alucinada, pisando a papa escarlate do cérebro, empaladora de carne e ossos, esgravatando para sair e se libertar da morte e do tumultuo, já exangue mas tenaz. submeto-te ao silêncio detona cabeças que se desencarcera no mundo como um choro sem tamanho. e que fiques, assim, sem tampo, a ver o céu diretamente. deita fora os olhos! silêncio misturado com o silêncio de todos os homens de cabeça rebentada. incapazes cada um e cada qual de emitir um som que seja mas aptos a ouvir em pleno o cosmos pela primeira vez. são estes os eleitos, guardiões do som da tempestade gravado a ferro e fogo na língua morta.

resenha | cs30 | digi ~ mai20 |

Deixa-te ficar a sentir e lê muito.

É com este convite que enceta a antologia de textos e fotografias Tapa-Esteiro (vol. 30), da CanalSonora. Ler muito: não em quantidade ou extensão. Os textos são breves. Não é isso que se pretende. Ler pois, em profundidade e através da espessura das palavras. É assim que se lê muito.

O título pode não ser autoevidente. Uma oportuna definição conduz-nos pela mão. Sou daqueles que já começa a ter pena dos peixes. Mas das palavras não. Este tapa-esteiro reteve os frutos da maré. De outro modo teriam ido com a corrente.

JJ sabe olhar. Com o tempo necessário para ver mais. É esse o labor do fotógrafo que se/nos prende ao pormenor mínimo. O pormenor que faz o mundo. Como a criança que estende as mãos com ingenuidade para o pormenor mínimo da espuma. O mundo não se deixa agarrar. Passa-nos pelas mãos, através do corpo e fica retido no tapa-esteiro da alma. É isso.

MR escreve sobre uma margem/fronteira que é ao mesmo tempo uma terra de ninguém. Terra onde se nasce sem nome. Talvez nascer com nome seja um privilégio que tomamos com certo nesta parte do mundo onde estamos entediados demais. Tudo nos aborrece. Até as nuvens que assomam cheias de chuva e de promessas.

LO excede-se neste texto. Um poeta quase maldito, cáustico, ubano depressivo, noturno, por vezes mesmo escatológico, maravilha-nos com uma poderosa metáfora da existência. Uma via sacra carregando às costas um acessório improvável. Mas exatamente aquele através do qual conseguimos ver tudo e tudo entender. Até ao silêncio.

PM Não vale tudo só para escrever um poema. Colocar em causa o equilíbrio do universo é uma coisa perigosa. Hoje em dia, para todos os poetas que ainda não o sabem, sacos de plástico não são um estorvo. Em qualquer lugar se lugar se largam – sem os desamparar – e escreve-se no telefone esperto. Abandonar sacos de plástico é mau e subversivo. Efeito borboleta.

AJV é para mim um mistério decifrado à minha maneira. A aparente insuficiência e singeleza da sua poesia é algo enganador. Há aqui uma certa maturação das coisas. Como se, reduzidas à sua essência, consigamos olhá-las de frente. Ao mesmo nível. E estarmos ao mesmo nível da palavra poética não é coisa pouca. É ficarmos completos.

FP lida com a memória, mas uma memória invulgar, projetada no futuro e para fora de si. Uma memória imaterial (sim, porque também há a memória material) que apenas existe se o objecto que a constitui puder não vir a ser. Pois que o amor pode muito bem ser isto também: a impossibilidade do agora tornada possível depois de nós.

MA A escrita de m. a. pode ser lida como um staccato literário. As frases curtas, que parecem querer terminar o texto por si só, precisam de uma certa respiração de permeio para que se liguem umas às outras, e à seguinte, de uma forma mais do que perfeita. m. a. domina a metáfora numa torrente de consciência fascinante e é também dona de um feminismo universal e estruturante dentro do qual cabem todos os seres.

FC é um poeta das grandes tradições clássicas, das odes longas e profundas, de um saber agregador e universal. É preciso lê-lo com um fito no que era antes e no que virá a ser depois. Com um pé no mito e outro na mundividência de quem abarca o cosmos com a sua escrita. E por esta via também, encontramo-lo mais próximo do entendimento da terra e dos seus.

MM Sempre perspicaz e acutilante. Diria mais, um escritor do seu tempo que sabe ler nas entrelinhas e descodificar o mundo com uma lucidez e souplesse desobrigada do azedume dos críticos e do desencanto dos pessimistas. Simples crítica social? Talvez. Mas o domínio da língua que escolheu e a sagacidade do discurso não enganam: literatura meus caros, literatura.

BN É esse o espaço ocupado pelos sonhos, não é? [o que fica no meio]

VSa (…) quantos crimes foram cometidos (…) contra (…) as (…) leis do coração? (…) O que sei é que a chave pesa tal como pesa o coração no fundo do rio. E corpo, do qual nunca fez parte mas de onde foi brutalmente arrancada, também pesa com a vontade de ir ao seu encontro. Se calhar um dia a ponte terá mesmo de ir abaixo só para se encontrarem. Só por causa do peso excessivo do amor.

VGC Lamento, mas nunca gostei de jacarandás. São as árvores mais bonitas mas também as que mais sujam com as suas belas flores peganhentas. Gosto muito mais de mulheres magras principalmente as que vagueiam sem rumo, rumo à orla da praia. Uma coisa é certa: só porque a mulher sorri nada nos garante que a água que parece fria está mesmo fria ou se apenas parece.

PJ é um atlante com os olhos postos no Atlântico e os pés e a alma no Mediterrâneo. É quem melhor define a melancolia estival. A melancolia de seres híbridos, Cesários do sul, menos ocidentais que meridionais, que trocaram as sombras e o bulício do Tejo pela luz incandescente da Ria e pelas cores tépidas do final de verão. Por isso viaja, em círculos, qual dervixe a caminho de uma aproximação prodigiosa.

Falta um. Devem ter notado. Desse porém, falarão outros. Se quizerem.

não somos filhos do amor

tenho uma certa pena do escritor que andou a matar-se mas não lhe escorreu que um homem, para se purificar, basta entornar uma garrafa de lixívia garganta abaixo. e do outro que, por pensar tanto nisto – no facto de não ter parido esta ideia -, desesperou terminando-se. o mundo já tem tanta gente que não percebo muito bem esta canseira de todos os dias se inventarem humanidades inteiras. ainda para mais, se a humanidade verdadeira – a que temos e não chega – sorri e pisca o olho.