Antígona

porque tiveste o ânimo e a força para transportar a morte para longe
como se houvera em ti uma torrente de vida
em vez da impossibilidade de um deserto
e uma dor bem mais leve
que a lage de um túmulo

porque tiveste clareza nas mãos
para cavar mais fundo do que os olhos conseguem ver

e dilaceraste as leis
com a fúria de um filho que quer à força nascer

voltas a casa digna do silêncio

para comer da justiça
o pão ázimo

e enfrentar no espelho a fronte bela
talhada para morrer.

o último festival da vida

subtilmente, ou nem por isso, os poetas vão sendo atacados, também, pela ordem do dia, sinais do tempo, ou, dito ainda de outra forma, pela psicose contemporânea da igualdade de género: já não há poetisas como hoje constatei num festival poético (a sardinha, a batata doce e o folar de Olhão distribuem-se por outras datas do calendário festivaleiro). não chove a sul, as barragens estão a secar e estamos num outono primaveril mas há poesia na rua: em 57 bancos de jardim e nas gargantas dos poetas. a rua, denominada do comércio, com a sua bonita calçada portuguesa extraordinariamente gasta (ou polida, se preferirem), muito, muito traiçoeira em dias húmidos, acolhe uma boa vintena de poetas do mundo em meia dúzia de mesas de café. simples no trajar, bem dispostos e claramente representantes do espectro: assim-assim; bons; muito bons; excecionais… democracia, democracia em frases cortadas na forma de versos livres. o magrebino encantou com uma espécie da melodia do deserto (foi o que escutei da sua voz indecifrável) e a indiana, pequenina e escura, encheu-me de lucidez e claridade (obrigado Sujata). e os outros deambularam por palavras bonitas, sentenças curtas e finais súbitos e inspirados. enfim, poetas. homens poetas. mulheres poetas. alheios a tudo isto, ou talvez não, passam os locais, os turistas, os expatriados, os bem vestidos, os maltrapilhos, os atarefados, os alheados… os mirones. um drogado esgueira-se por entre dois poetas (homens poetas) e vai buscar os instrumentos do seu ofício/vício que tem escondidos num recanto. a sua epifania… viro-me e apercebo-me da escuridão, da sujidade e do cheio intenso a mijo. uma mulher pobre, curvada pela vida, para e fita a corte com ar de profunda incompreensão. os seus lábios mexem-se numa ladainha inaudível que dura um minuto. não a ouvi, mas sei que era um poema.

filho de 8 cidades

encontrou-se sozinho de frente para a êxedra no exato lugar onde outrora fora floresta e pântanos. uma coisa bela por si só e isolada naquele local como que caída do Olimpo, sem semelhança com nada que se recordasse. estava cansado da viagem e sentia, pela primeira vez, que a jornada começava a devolver-lhe nos músculos e nos ossos, a distância e a demora. era cego de um olho e o que lhe sobrava lacrimejava. teve tempo para voltar muito atrás, até à recordação que mais o assombrava. vivia nele o som nítido do seu primeiro choro e o rosto murcho da parteira que era cega e bêbeda. disseram-lhe que demorou a chegar e que por isso nasceu mais roxo que os demais. assim lhe justificavam a vista morta e a perna manca. mas sempre fora um homem feliz. a mais feliz das parteiras ajudara a vir ao mundo o mais feliz dos homens.
ninguém aparecia, por enquanto, e não parava de cogitar fazendo e refazendo as ilíadas e as odisseias, pensando sempre nos pormenores que iria acrescentar. não era um mero papagaio habilidoso como os que ouvira em criança mas aprendera deles as histórias e estava grato por existirem papagaios neste mundo. e ouvidos para o escutar, mesmo que hoje tardassem em chegar. a demora, não a dos ossos, a dos outros, deixava-o sempre ansioso e o dom da palavra misturava-se com o hábito pernicioso de tocar insistentemente no sexo como que para aliviar uma moinha da alma para a qual não tinha nome. fora isto, era conhecido pela pederastia determinada, pelo onanismo devoto e pelas piadas ordinárias. controlava-se até ao cansaço para não apalpar crianças e mulheres em público e, para não explodir por dentro, chamava maricas a todos os homens maduros. era assim o mais feliz dos homens.
finalmente apareceu um, dois, pequenos grupos, na galhofa, gritando, contando anedotas, apalpando-se uns aos outros, bêbados, coxos, novos, velhos, mães, filhas, grávidas, viúvas, um leproso disfarçado, escravos com os seus amos, dignatários, mendigos, homens ricos e estropiados da guerra. parou de se tocar e acalmou-se. por fim, a razão de ali estar. a prova de ser, ainda, o mais amado entre os helenos. esboçou um sorriso perspicaz, cofiou a barba e o olho babado tornou-me felino e matreiro. olhando em volta começou a perscrutar os rostos que tinha à sua frente, a pesar-lhes o caráter, a avaliar como eram os seus dias, o que encobriam em público e vomitavam em privado. colocou-se então no centro geométrico do recinto e levantou a mão esquerda com autoridade. todos se calaram. “Hélade, que história quereis? A do lacedemónio cornudo ou a da rainha que experimentou todos enquanto o rei andou embarcado na volta da guerra? Ou quereis umas anedotas para aquecer?” o burburinho da discórdia tornou-se ensurdecedor mas no meio da algazarra uma voz destacou-se: “Oh Mero, a que quiseres, a que quiseres!”

prova de contacto

01. esses locais, disseram, foram outrora desfeitos em pedaços por uma violenta convulsão, onde antes formavam uma terra única. extensos pântanos, os quais se podiam atravessar de barco, e que entretanto alimentaram as cidades vizinhas, não suportam hoje a lâmina de um arado.        

02. a hera cresce melhor se não lhe forem dedicados quaisquer cuidados, o morangueiro floresce em abundância nos solitários recessos rochosos e a melodia dos pássaros é mais doce na sua enlevada ignorância da arte.

03. estas são as formas primeiramente determinadas pela natureza. ao comerem desses frutos foi-lhes permitido prolongar os seus dias. no entanto, a sua sede de sangue não os coibiu de se alimentarem dos da sua própria espécie.

04. à semelhança do bom selvagem, convém saber interpretar o voo das aves na sua inconstância aérea e conhecer as vísceras dos animais melhor do que as suas próprias entranhas. que as nossas mentes se regozijem no que de bom virá de futuro; um manto de desdém e esquecimento é o que inelutavelmente será estendido sobre o presente.

05. quem pode disparar o seu arco um dia inteiro e nunca acertar no alvo? dos augúrios e das torrentes dos rios não se guarda memória e as imagens brancas irão desvanecer pela indiferença. as profecias que se consumaram são capazes de estarrecer justamente pela sua raridade e maravilha. 

the forgotten ones

they said
she has two faces
– none has meet mine –
a life span of love
– spare change to spare –
a map, a maze of streets to tread in
in sorrow, joy, unkempted secrets
how a woman is an ocean
you can never swim in
wiped out from flesh, some
– unbroken reddish bones –
dry out on the shore
thirsty
and forgotten.

a ver os aviões

incessantemente, os aviões rasgam o céu do verão indiano que não termina. de manhã está muito frio. a geada cola-se ao restolho do trigo calando a seara destroçada sob um manto de vidro. disseste que este apocalipse era a estação que aguardavas há muito. que querias reaprender os meandros dos meus olhos agora desenhados nas mãos como deltas de um rio. não senti o tempo passar, o silêncio imposto das palavras esquecidas que veio morar entre nós, a falta das tardes dentro do carro olhando a poalha solta pelo vento e o mel da tua pele preso entre os lábios. quero esquecer. nada e tudo. a tábua rasa que tropeçava e ria à tua porta. a inabilidade dos dedos (motricidade fina, como fazes questão de dizer), a impossibilidade dos caminhos, o muro que era o futuro que tinha quando te conheci. somos aquelas linhas não visíveis que as aves deixam no céu e os pássaros de metal imitam. lá no alto, esfarelando-se inteiras, mimetizando o azul perfeito que as não distingue. ainda estamos dentro do carro a ver os aviões, a sentir a poalha e contando as linhas de cabeça apontada para o alto. animais aninhados um no outro, aquecidos pelo calor feroz da tarde que se aproxima.