resenha | cs30 | digi ~ mai20 |

Deixa-te ficar a sentir e lê muito.

É com este convite que enceta a antologia de textos e fotografias Tapa-Esteiro (vol. 30), da CanalSonora. Ler muito: não em quantidade ou extensão. Os textos são breves. Não é isso que se pretende. Ler pois, em profundidade e através da espessura das palavras. É assim que se lê muito.

O título pode não ser autoevidente. Uma oportuna definição conduz-nos pela mão. Sou daqueles que já começa a ter pena dos peixes. Mas das palavras não. Este tapa-esteiro reteve os frutos da maré. De outro modo teriam ido com a corrente.

JJ sabe olhar. Com o tempo necessário para ver mais. É esse o labor do fotógrafo que se/nos prende ao pormenor mínimo. O pormenor que faz o mundo. Como a criança que estende as mãos com ingenuidade para o pormenor mínimo da espuma. O mundo não se deixa agarrar. Passa-nos pelas mãos, através do corpo e fica retido no tapa-esteiro da alma. É isso.

MR escreve sobre uma margem/fronteira que é ao mesmo tempo uma terra de ninguém. Terra onde se nasce sem nome. Talvez nascer com nome seja um privilégio que tomamos com certo nesta parte do mundo onde estamos entediados demais. Tudo nos aborrece. Até as nuvens que assomam cheias de chuva e de promessas.

LO excede-se neste texto. Um poeta quase maldito, cáustico, ubano depressivo, noturno, por vezes mesmo escatológico, maravilha-nos com uma poderosa metáfora da existência. Uma via sacra carregando às costas um acessório improvável. Mas exatamente aquele através do qual conseguimos ver tudo e tudo entender. Até ao silêncio.

PM Não vale tudo só para escrever um poema. Colocar em causa o equilíbrio do universo é uma coisa perigosa. Hoje em dia, para todos os poetas que ainda não o sabem, sacos de plástico não são um estorvo. Em qualquer lugar se lugar se largam – sem os desamparar – e escreve-se no telefone esperto. Abandonar sacos de plástico é mau e subversivo. Efeito borboleta.

AJV é para mim um mistério decifrado à minha maneira. A aparente insuficiência e singeleza da sua poesia é algo enganador. Há aqui uma certa maturação das coisas. Como se, reduzidas à sua essência, consigamos olhá-las de frente. Ao mesmo nível. E estarmos ao mesmo nível da palavra poética não é coisa pouca. É ficarmos completos.

FP lida com a memória, mas uma memória invulgar, projetada no futuro e para fora de si. Uma memória imaterial (sim, porque também há a memória material) que apenas existe se o objecto que a constitui puder não vir a ser. Pois que o amor pode muito bem ser isto também: a impossibilidade do agora tornada possível depois de nós.

MA A escrita de m. a. pode ser lida como um staccato literário. As frases curtas, que parecem querer terminar o texto por si só, precisam de uma certa respiração de permeio para que se liguem umas às outras, e à seguinte, de uma forma mais do que perfeita. m. a. domina a metáfora numa torrente de consciência fascinante e é também dona de um feminismo universal e estruturante dentro do qual cabem todos os seres.

FC é um poeta das grandes tradições clássicas, das odes longas e profundas, de um saber agregador e universal. É preciso lê-lo com um fito no que era antes e no que virá a ser depois. Com um pé no mito e outro na mundividência de quem abarca o cosmos com a sua escrita. E por esta via também, encontramo-lo mais próximo do entendimento da terra e dos seus.

MM Sempre perspicaz e acutilante. Diria mais, um escritor do seu tempo que sabe ler nas entrelinhas e descodificar o mundo com uma lucidez e souplesse desobrigada do azedume dos críticos e do desencanto dos pessimistas. Simples crítica social? Talvez. Mas o domínio da língua que escolheu e a sagacidade do discurso não enganam: literatura meus caros, literatura.

BN É esse o espaço ocupado pelos sonhos, não é? [o que fica no meio]

VSa (…) quantos crimes foram cometidos (…) contra (…) as (…) leis do coração? (…) O que sei é que a chave pesa tal como pesa o coração no fundo do rio. E corpo, do qual nunca fez parte mas de onde foi brutalmente arrancada, também pesa com a vontade de ir ao seu encontro. Se calhar um dia a ponte terá mesmo de ir abaixo só para se encontrarem. Só por causa do peso excessivo do amor.

VGC Lamento, mas nunca gostei de jacarandás. São as árvores mais bonitas mas também as que mais sujam com as suas belas flores peganhentas. Gosto muito mais de mulheres magras principalmente as que vagueiam sem rumo, rumo à orla da praia. Uma coisa é certa: só porque a mulher sorri nada nos garante que a água que parece fria está mesmo fria ou se apenas parece.

PJ é um atlante com os olhos postos no Atlântico e os pés e a alma no Mediterrâneo. É quem melhor define a melancolia estival. A melancolia de seres híbridos, Cesários do sul, menos ocidentais que meridionais, que trocaram as sombras e o bulício do Tejo pela luz incandescente da Ria e pelas cores tépidas do final de verão. Por isso viaja, em círculos, qual dervixe a caminho de uma aproximação prodigiosa.

Falta um. Devem ter notado. Desse porém, falarão outros. Se quizerem.

não somos filhos do amor

tenho uma certa pena do escritor que andou a matar-se mas não lhe escorreu que um homem, para se purificar, basta entornar uma garrafa de lixívia garganta abaixo. e do outro que, por pensar tanto nisto – no facto de não ter parido esta ideia -, desesperou terminando-se. o mundo já tem tanta gente que não percebo muito bem esta canseira de todos os dias se inventarem humanidades inteiras. ainda para mais, se a humanidade verdadeira – a que temos e não chega – sorri e pisca o olho.

a casa dos que não querem morrer

 “Para onde levaram os antigos moradores?” A pergunta apanha-os de surpresa. Desviam o olhar, baixam a cabeça, parecem subitamente envergonhados. Nadya apercebe-se de imediato que não vão responder. Logo depois, Viktor tenta mudar de conversa, após uma pausa constrangedora. Oferece um copo de vodka. Bebe o seu de um trago. Bate com os pés no chão destruído. Olha para o exterior com ansiedade. Nadya não sabe se ele quer falar ou fugir. Talvez voasse, se pudesse.  Illyova atalha: “Amanhã temos uma celebração na igreja. Vem cá um padre importante. Pode pedir autorização para fotografar. Hão de estar muitas pessoas das aldeias vizinhas.” Nadya, afável, sorri reagindo à amabilidade, e responde: “Pois, mas eu vim pelo asilo…” O asilo não é um lugar alegre, ao contrário da igreja. Viktor e Illyova não compreendem muito bem porque é que Nadya veio, nem pelo que veio.

Estas coisas são impossíveis de outra forma. Não se chega e começa simplesmente a trabalhar. Na maior parte das vezes os avisos são severos: “Tu é que sabes. Vais por tua conta e risco.” A preparação começa sempre com um contacto. Alguém que alguém conhece. Quando isso não é possível fala-se com as autoridades locais. Alguma instituição que esteja no terreno. Pergunta-se por quem possa ter interesse em colaborar. 

Svetla tem apenas 22 anos e trabalha numa creche próxima. Ainda não tem filhos embora já esteja casada há três anos, o que não é vulgar. Encolhe os ombros se lhe tocam no assunto e devolve em troca: “Quando deus quiser.” Morou no asilo com a sua mãe e duas irmãs, logo a seguir à guerra. Foram das primeiras pessoas que foram para lá morar. Havia acabado de perder o pai e o irmão, ambos no conflito. Só saiu porque casou. A mãe e a irmã nunca puderam sair. Ajuda-as com o que pode e como pode. Conhece todos os que nunca partiram. É o melhor contacto que Nadya podia conseguir e desejar.

Na manhã de 28 de outubro nevou ligeiramente. O ar estava gélido e seco. Não houve aviso prévio. Tudo estava calmo e silencioso. Subitamente começaram os bombardeamentos. Yerik sabia que este dia estava prestes a chegar. O silêncio não era garantia de nada. Num sábado frio quase todos estavam em casa. Era por isso que a cidade permanecia como que adormecida até ter sido sacudida da forma mais violenta possível. Yerik ligou para o presidente da câmara e exigiu a evacuação imediata de todos os internados: “Só tenho uma ambulância!” – gritou enfurecido. “E vai para onde?” – perguntou o presidente, acrescentando: “Tenha calma e aguente. A prioridade é o hospital civil. Se quiser ajudar, vá para lá.”

“Venha por aqui, Nadya. Quero apresentar-lhe a Dasha e a Inna.” Svetla guia Nadya pela mão até ao interior do apartamento. Está a ficar escuro e a principio parece que não há nenhuma luz. Exceto, talvez, a luz que irradia de duas pessoas na penumbra. Têm um sorriso verdadeiro estampado no rosto. Quem o podia esperar. Não é isso que se antecipa quando nos curvamos e espreitamos, curiosos, para o inferno. Ver rostos vivos e que ainda por cima sorriem. Nadya perdeu a força nas mãos por um segundo. Como conseguiria levantar a câmara e despir aqueles seres cheios da mais pura dignidade? Se o fizesse, porque ali foi para isso, onde estaria o seu perdão? Sentiu que pecava.

… to be continued

California dreaming

Still missing highway one. Our south trip that distant year gone. My lost camera. The wildest night. The fulfilled youth. Your fire creeping upon the sand.

We were dead then. Alive to the bone and fierce. Full of joy and speed.

Blind

Still longing for eyes as salted as your eyes. The shackles of your arms deposed on mine. The silent book. Mother nature. Milk and honey spilled overland.

We were alive then. Muted blazing souls. Full of darkness and thrilled.

Silent

Still missing you. Long beach. The spell of the night. That burning horizon. My ashes turning into ashes. Your upper love and upper hand.

We were to born then.

We were

Free.

paz de trazer por casa

não sei como expressar a violência. porque não quero, nunca, dar-lhe um nome ou descrever-lhe a face. e até porque a sinto como um silêncio pesado demais onde a palavra não entra, palavra sagrada, não cabe nem serve para nada. o discurso, que tudo humaniza, não pode estar ao serviço do inominável. não pode ceder-lhe um lugar, nem sequer, uma nota de rodapé. e depois [isso] é, também, uma implosão aplicada aos seres que deixa atrás de si uma espécie de vácuo – e como sabemos o vácuo é nada e não se pode representá-lo. impossível pois este não saber dizer, imposto mas também negado, um voltar a cara, deixar de responder, ignorar, desumanizar. desumanizo-te violência que é como quem diz: tiro-te o máximo de tudo o que te posso tirar.

let’s talk about it

diz G. M. Tavares no seu “Atlas…” (1) “a imobilidade é uma posição não política”. e isto remete para o cidadão apolítico que já fui, e deixei de ser no dia em que comecei a sentir a política na minha pele, e na dos outros, e precisei de entendê-la um pouco melhor. nesse momento perdi a imobilidade. daqui que, na boa tradição de fazermos juízos sobre os demais, concebo cada vez menos a inércia que impede muitas pessoas de assumirem posições políticas. tenho vindo a aperceber-me que isso, na América, é muito comum. só se toca na política em determinados círculos – como se só esses estivessem autorizados a fazê-lo – num claro sinal de paroquialismo congénito. fora dessa lógica, o assumir de posições políticas é quase uma heresia. as pessoas conseguem falar com um certo à vontade de dinheiro – ao contrário dos Europeus – mas quanto ao outro assunto, calam-se: talvez detestem o confronto; não querem chocar ninguém; rejeitam que alguém os choque; borram-se com a possibilidade de perderem clientela e amigos, etc. há dias recebi uma newsletter de um fotógrafo canadiano que sigo na qual inesperadamente surgiu um tema político. ele estava profundamente afetado com a decisão da administração Trump de suspender o financiamento à OMS justamente no pico da mais grave crise sanitária da história recente. no entanto, depois de desabafar, não conseguiu evitar quase pedir desculpa por ter caído na tentação de ter metido política na missiva e lá foi prometendo que o não voltaria a fazer…

(1) Tavares, Gonçalo M. – Atlas do Corpo e da Imaginação – Teoria, Fragmentos e Imagens, 2019, pág. 211, Relógio D’Água.