arquipélago da imaginação

os mapas do território percorrido ou imaginado são povoados por aqueles que não tinham destino, ou cedo o abandonaram

que se perderam ou foram conduzidos a lugares que não existiam antes de terem sido encontrados e nomeados

o território compreende pois a visibilidade mesmo que se trate da velada evidência que reclama a sua própria revelação

não existir, não é bem o mesmo que não estar lá. não existir é somente o tempo ou o espaço em falta para a chegada.

rotina

ESTÁS A INICIAR A ROTINA “AMOR”. A ROTINA “AMOR” NÃO PODE SER PARADA. NÃO É POSSÍVEL PREVER COMO TERMINA. NO LIMITE SERÁ ABORTADA MAS SEMPRE COM DANOS IRREVERSÍVEIS. NÃO TE TORNA MAIS HUMANO, NECESSARIAMENTE. NÃO EXISTE GARANTIA DE SATISFAÇÃO. NÃO DEVOLVEMOS O DINHEIRO. A DOR PODE SOBREPOR-SE AO PRAZER. O PRAZER PARECERÁ SEMPRE DEMASIADO EFÉMERO. A DOR, ESTRANHAMENTE, PERSISTE. TERÁS QUE TE ESFORÇAR, MUITO. NEM SEMPRE FARÁ SENTIDO. NEM SEMPRE O ESFORÇO COMPENSARÁ. NA MAIOR PARTE DO TEMPO NÃO SENTIRÁS NADA. ELIMINA A PALAVRA ENTENDER.

CONTINUAR?

A INICIAR “AMOR”.

VAZIO. SUPERLATIVO. TUDO. TUDO. SURPRESA. ÊXTASE. DECLÍNIO. TÉDIO. EXPECTATIVA. REENCONTRO. DECEPÇÃO. RENÚNCIA. DOR. VAZIO. NADA. NADA. NADA. EXPLOSÃO. DESEJO. PRAZER. LOUCURA. ÓDIO. CONFUSÃO. RAIVA. RAIVA. RISO. CHORO. SUOR. SUOR. SOLIDÃO. CONVULSÕES. TRISTEZA. COMOÇÃO. FELICIDADE (COMPRA CRÉDITOS PARA MAIS FELICIDADE). INCOMPREENSÃO. CIÚME. MEDO. DESGOSTO. ALEGRIA. PIEDADE. INVEJA. ÓDIO. ALEGRIA. EXCITAÇÃO. NOSTALGIA. VÁCUO. DESEJO. PRIVAÇÃO. SAUDADE. CALMA. CALMA. ÓDIO. ÓDIO. ÓDIO… ÓDIO… ÓDIO… … ÓDIO… … … ÓDIO… … … …

ERRO! ERRO. ERRO!

A ABORTAR “AMOR”.
A ABORTAR “AMOR”.
A ABORTAR “AMOR”.
A ABORTAR “AMOR”
A ABORTAR “AMOR”.
A ABORTAR “AMOR”.
A ABORTAR “AMOR”.

KERNEL PANIC!

sleeping south

delta people live in a liquid world of suspended lives
floating living-dead bodies shrouded in crowns
white wooden churches oozing blacked aleluias
moaning hookers under reverend wails and spells

we embrace you
we love you
Jesus paid it all

salvation has the shape of a depleted gas station
every morning drowned in hope and fear
same old Buick, same old God, same tight tight ties
song of songs bleeding ancient southern cries.



disclaimer: muito novo escrevi “a minha américa não é um sonho”. apesar da minha imperfeita compreensão do mundo, Holywood já não me vendia as suas fantasias. a américa não é um sonho, nem um pesadelo, mas pode muito bem ser ambas as coisas. este poema trespassa dois universos com os quais me cruzei recentemente. um ficcional (a primeira temporada da série de televisão “True Detective”) e outro nem tanto (o livro de Paul Theroux “Sul Profundo”). ambas as obras são notáveis visões da vida no sul dos EUA. hoje escreveria “a américa profunda é a mais fascinante e arrepiante das ficções.”

o rei é um servo louco

vejo mãos quebradas que nunca aprenderam. de nada lhes serve a membrana que se lhes arrancou. os ossos são ossadas limpas pelo vento ao sol. capelas imperfeitas, o que são. despojos, e arrogantes, na incompletude dos corpos. coisas sempre a caminho de saber com o mundo a rir-se e a fugir por entre os nós dos dedos. e a pele tão lisa por onde se evade o amor.

é sempre demasiado cedo e fica sempre tarde, cedo demais. no processo que avança, ilude-se a decadência com o esplendor. por mais que os alcancemos nunca nos basta a abundância, o entendimento ou a inocência. devíamos existir de trás para a frente. encarar primeiro a morte, saber que o fel cura. abraçar a idade, a ironia e o regresso. e por fim, nascer.

omissão

até que sinta falta da cadeia quebrada desses anos
dos beijos e dos cheiros das outras coisas que nem recordo
do chão do mar
que era tão claro e tão profundo
e do feitiço das ondas em arremesso sobre a praia
da noite selvagem e escura
com um fiapo da nossa canção sobre o ar
das tuas mãos de sal
quebradas no fôlego das fogueiras
e da dança do fogo
devoradora da nossa vaidade

até que sinta falta
da urgência desses anos
desavindos, idos, mortificados
do livro sobre o qual juraste
aberto na página da perda e da quimera
da tua pele de cordeiro
da alvura do entardecer
e do grito de cristal

até que sinta falta
da tua morada
e do teu esquecimento.