mil palavras

ocorre-me uma frase batida. evitável, penso, na inevitabilidade de quão inexoravelmente se impõe. uma imagem vale mais do que mil palavras. e, por mais improvável que estas palavras encerrem uma verdade inquestionável, não deixam de expressar uma inquietude. a iniludível perplexidade imanente – quase uma impossibilidade mesmo! – de traduzir em discurso o que sentimos ou pensamos perante uma determinada imagem – e queria aqui, deixar inclinar o enquadramento para a imagem fotográfica. com efeito, nem todo o pensamento se traduz em palavras. como expressar então sem as mesmas o que sem estas não nos é consentido expressar? como lidar com o assombro do caminho que de súbito nos é retirado debaixo dos pés? serve a frase, justamente, para resolver da forma mais rude e imperfeita a complicação insolente que nos obriga a parar. a imagem vale mais porque as mil palavras se desadequam, não bastam, omitem o que a imagem diz, faz sentir, remete para, é. daqui decorre mais um dos fascínios da fotografia. o facto de ser uma linguagem não lexical e categoricamente tão complexa que nos transporta para além das formas de pensamento mais facilmente expressas e, com isso, nos baralha, por vezes, e confunde. nem diria de outra forma: ficar sem palavras – não utilizar nem uma, nem mil – é por vezes o melhor que nos pode acontecer.

cova

a luz cai fotograficamente sobre o sofá e cai mais fundo agora que o lugar está vago e o teu perfume persiste, como por toda a casa, essa outra forma de materialização da luz que emana suavemente da cova sinuosa na almofada, onde existes, posso pressentir, na presença da tua ausência. a luz atrás de mim que me vela, ou não fora luz afinal , um casulo ao canto, amarelo, morno e manifesto, mas em silêncio, como em silêncio só pode estar quem não está. e enquanto escrevo os meus cantos, os meus contos, os meus versos nem medidos nem rimados, os anseios e os devaneios, a tua voz, que não ouço, dita-me em segredo os afazeres da casa, dos dias, do deve e do haver da vida, do amor – em suspenso – que ainda se há de fazer e das visitas que hão de entrar, sempre, pela porta da cozinha, precisamente, a porta das visitas anunciadas pela infusão de lima, pela frieza da pedra ou pelo dourado do sol que chega, sem pedir, pela janela da tarde. e tudo isto é tão singular, o espaço dentro do tempo e o tempo que se sentou entretanto no teu lugar com a certeza que não importa, de que os anos findam sem tardar e tudo se cumpre seja lá como for. ainda agora estava eu ali sentado à secretária, de costas, como sempre, meditando nisto e com saudades já, ou coisa pior, um aperto, e virei-me sem nunca contar ver-te porque estava certo de ainda não ser ter sido a hora da chegada mas sorriste e disseste, sem mais, que a cova na almofada cedia com os anos e que um dia a luz ainda lhe haveria de tocar.

encantamento

coisas de casa; coisas da rua; do vento; do carácter; quiçá da vontade. tão palpáveis exceto a palavra vã que tudo e nada define: coisas! o que nos preenche, esvazia, circunda ou gasta. nos move rumo a outros atributos que não sabemos e por isso aos quais – justamente por não sabermos – demos um nome: desconhecido! tudo é desconhecido – até o ponto de onde cada um de nós partiu e ao qual nenhum de nós pode voltar – quem sabe dizer onde esse ponto está? assim como nada sabemos da chegada. bonita palavra esta inventada para definir algo que termina: o fim! nem nos recordamos da viagem, a linha ousada sobre o sentido trágico da vida, a súmula de todas as coisas, o exercício do movimento perpétuo e contínuo do ser. coisas de nós; dos sinais; dos astros; quiçá dos enganos. escritas no fôlego baço dos pulmões, no espaço insensato que nos mora entre os dedos, no alcance da conjectura que não distingue o cintilar da razão. tigres de papel, colinas alcandoradas nas nossas costas, horizontes cegos pisados pelos nossos próprios pés. enfim, um crepitar. lento ou desassossegado. ou uma suspiro infinito. coisas que vês se olhas de dentro e para fora ou de fora e para dentro. da ousadia; do céu iluminado; da casa escura rasgada por uma nesga de luz.

rotação I

sou um ponto móvel
nem um lugar, nem um tempo (in)exato
nem uma mutação
nem perene nem constante
imutável na intrínseca deslocação
tal como a casa
o lugar não lugar que habitei
no instante em que foi casa
a casa que fui e que volta sempre
onde posso viver para sempre
autoctone ou estranho
estranho inter pares de mim
estranho como os demais
demasiado estranho para mim
sou a cidade que transita
que trespassa a imobilidade
tão imobiliária como os resíduos 
atómicos, nucleares
mascarados pelo tempo e pelo espaço
hipo-simplificado-hiper
do desenraizamento aéreo
pautado pela negação de si
do ponto imóvel que fui
antes da rotação impossível
sobre o eixo possível de mim.

Darjeeling

cruzei-me com seres estranhos, meus irmãos, por sinal, chegados de um lugar onírico que o homem habita mas não transforma. lugar de sonhos que se tornam visíveis à medida que caminhamos e rodamos sobre os nossos próprios pés. tão mais líquido que aéreo, surdo e esbranquiçado como o céu leitoso de um país tropical. onde os rios violentos, que descem, são lagos, por fim, e nos verões que não terminam banham-se crianças que nunca crescem. onde os longínquos gritos dos pavões cortam o ar vermelho do fim da tarde, conjurando as nuvens no céu. onde o resto do mundo é somente uma possibilidade, se existir, afinal… seres de olhos negros e pele cor de mel que vivem onde tudo se incendeia pelo odor e humidade dos séculos. o chá desce das montanhas à noitinha, porque está escrito assim. o vendedor de peles regateia a última rupia com um balançar da cabeça. o interior de cada casa ilumina-se para apaziguar os anelos de Xiva. fecham-se gentilmente as portadas aos demónios, deixando-os lá fora. e nada mais se move em cada morada do que a mão que fala do cansaço e a boca que vai excitar o fogo, com amor.