sete anos

aos sete anos corri descalço para os braços da minha mãe
com o dorso aberto por onde cabia uma mão inteira

e a minha mãe abraçou-me a mim e ao sangue
a ambos que por entre os dedos lhe fugiam

mas fiquei

e ajudava o meu irmão a montar armadilhas para os pássaros
que soltávamos dentro de gaiolas em cativeiro
e trocávamos como cromos da bola

pássaros que morreram sem o abraço de uma mãe

quando o sangue lhes secou dentro do corpo.

fata Morgana

o que é certo é que partiste daquele ponto que agora consegues avistar, vencida que está, com afinco, a subida. foi logo aqui que te surgiu o ensejo de suspenderes a ida, e olhar para trás. não te acometerá a tentação de Edite nem o castigo das pedras de sal. podes pois correr os olhos por sobre a praia e ainda ver o vestígio dos teus passos a que o mar há de chegar ou o vento desvanecer. a subida doce ao longo da crina da duna, a pedra que se desfez um pouco sob os teus pés, a rocha que segurou o teu pulso e te trouxe cá acima. o que vês na distância consegues mensurar com a esquadria do teu corpo, as pernas ligeiramente fletidas e os olhos cerrados para que nada fuja. é este o lugar de onde se lançou a serpente, no qual a águia virá pousar e por onde terás que descer. que aponta ao horizonte ensinando o caminho que não existe mas que deves seguir. para além onde vês um castelo que não pode ser, de alicerces no ar e ameias no mar, trémulo e acabado de construir. e já o teu vulto partiu e ainda aqui estás de olhos impedidos e mão fremente.

Eco

e isto é
a última palavra

o saldo do teu silêncio
que volta
para dentro da tua voz

a sílaba devolvida
pela manhã

o vulto da paixão
calada e carmim

o que a língua
morde e não diz

o circulo dos teus braços
rugindo em desespero

e sei que choras

pelo regresso que nunca
cumpre o teu amor

e assim é descrito

descrito

descrito

escrito…

the beginning

I

never thought I would speak about youth
young people never die, never think about age
age is an absent thought so distant as a dream
a dizzy liquid mirage trembling in the desert
the thinnest line of forgiveness and oblivion

II

how far has you travelled?
I’ve lost
words enough to tell
you may
read my hands
instead.

III

small creatures
live and die
by a candle light

I’ve turned into the shade

silenced by the silenced
words turned
into ashes.

ibn Qasi

diziam que o alaúde se ouvia no meio do pomar, do lado de lá do rio, nas noites frias, como uma alma encantada
que havia secado como um barco abandonado, um casco ressequido de uma nau ainda por inventar
que havia um cheiro a canela, impossível, e cor de sangue em vez de ouro e que, estranhamente, o luar se apagava subitamente
ali
ibn Qasi
que os teus poemas eram ditos, indistintamente, amaldiçoados poemas mortos na ponta de uma língua já dormente
ibn da luz do sol
do sul
do amor
o que os teus poemas diziam
que nem sabias cantar…

die neue Mauer

se estiveres na capital [do império imperfeito], segue a marca no chão, sem lógica aparente, que atravessa ruas e praças e avenidas obliquamente, que revela em silêncio o labirinto impossível de uma geração rasgada ao meio pela estupidez humana. e procura entender o porquê de por vezes terminar junto a uma parede e surgir de novo do outro lado de um edifício e cruzar jardins e seccionar janelas de vidro como uma lâmina aguçada que não revela o seu propósito. e repara, como agora, o vento circula livremente por cima dessa linha, a única vontade que não intersecta.