Abissínia

percorreu as duas últimas milhas a pé. não por necessidade ou expiação, mas por respeito, dizia. não se chega junto a um morto de carro, ou mesmo a cavalo, muito menos de mãos vazias. se nada trazia pegava simplesmente numa pedra que encontrava pelo caminho e colocava-a sobre a campa. como os Judeus, mas por um motivo diferente. sempre por um motivo diferente. não existem duas sepulturas iguais, nem dois caminhos para chegar, até os ossos que lá estão têm as suas particularidades. assim continuou pela azinhaga poeirenta ladeada por muros de pedra baixos. de ambos os lados uma terra calcinada e esquecida por Deus. desta vez trazia um livro na sacola de lona, mas precisava na mesma de uma pedra. colocaria o livro por cima da pedra grande e a pedra pequena por cima do livro. talvez assim o vento não o levasse, menos amolecido ficaria pelo orvalho, não seria cobiçado por um coiote faminto. todas as mulheres são diabos que escolheram ser anjos! – mandaste escrever sobre a majestosa entrada do rancho do sul. foi num dia trágico e belo e estavas toldado por fragrâncias estranhas. por isso vim hoje aqui! – confessou-lhe com as mãos rezando sobre o peito nu. também mandaste escrever, ou disseste, que ao pé de um morto permanecemos calados mesmo que depois festejemos com ele, numa grande farra, tudo o que de ímpio venerou ou matou com os seus próprios dentes – se tempo teve para todos os desejos. são coisas da vida e, depois, quando já não estamos cá, são coisas da morte também. pousou pois a pedra sobre os poemas de amor e ódio e só depois reparou que era um seixo. um seixo encontrado numa terra seca e sem água só pode ser um seixo miraculoso. lia-te um poema dos teus mas sei que não me irias ouvir. sempre foste teimoso e surdo. de certeza que agora não estás melhor. regressou pelo mesmo caminho. não havia outro. tinha duas milhas de pó pela frente e um carro à espera.

Libéria

Aos sete anos e três dias foi-lhe arrancado o coração.  A seguir a vontade, a inocência e a humanidade. Indego, hoje vais matar! E trouxeram-lhe de presente o irmão mais novo. Tão prostrado que nem chorava, nem gemia. Faz como te digo. No meio da testa! Ao vigésimo quinto dia, na montanha, tornou-se homem, apesar de tudo. Já sabemos, não pertencendo sequer à sua espécie. O sangue ensopou-lhe o sexo e ele lambeu-o e riu-se. Estava quente. Ainda existiam coisas que o faziam sentir-se vivo. 

Tudo isto são memórias mas, de tão vagas, mais parecem sonhos distantes. Indego não se recorda de alguma vez ter sonhado. Sonhos bons, digo. O crack fá-lo viajar para dentro de um carrocel de silêncio ensurdecedor e isso basta-lhe. Assim se cala o som de 100 000 balas. Assim conduz o cérebro a um simulacro de sono, duas ou três vezes por dia. Um sono febril, agitado, de estertores. Fá-lo num canto imundo de uma campa, com fezes e crânios quebrados aos pés. No cemitério abandonado os mortos não descansam e os vivos trazem a morte guardada no peito.

São todos irmãos mas não os reconhece. Têm todos o mesmo pai e desse pai não sabe o nome. Lembra-se, porém, de uma outra vida, mais feliz. De aldeias incendiadas, de catanas enfurecidas, de cabeças rolando como bolas. De fogueiras e pores-do-sol impossíveis. E de estar preparado para tudo. De não ter medo de nada. Indego, hoje vais matar! Aos dezassete anos e três dias já não tem lugar para ser alguma coisa e as balas continuam a silvar ao lado da cabeça. É a única voz que retém. Todos os outros sons se calaram. Apenas a fúria lhe fala. A última companhia.

mapa de uma ilha

se não me engano há uma lei que diz isto: as pessoas deslocam-se em sentido inverso à rotação da terra. como outras leis que determinam uma vocação contrária à força primordial. consideremos pois, que tudo o que lhes resiste é mais forte. se saltamos, mesmo que por breve instante, tão breve que nem se possa regular, seria extraordinário que o mundo se deslocasse de acordo por baixo dos nossos pés. é talvez assim que se misturam os líquidos, os reflexos das nuvens sobre os espelhos de água, a guerra com a vontade da trégua e a calma com a morte quando os alísios decidem descansar. e as ideias também, essas coisas inúteis que viajam nos livros, em bojos de navios, clandestinamente, nas intermitências de luz que passam por baixo dos oceanos. se tudo ficasse quieto, à guisa das fundações das casas de barro, na sombra dos rios que secam, como as pessoas que envelheceram na puberdade, não ouviríamos o roçagar do silêncio contido nem falaríamos soltando as mãos no ar. se não me engano – desta vez -, as leis que vigoram pertencem a peregrinos que as descreveram primordialmente no final de uma circunavegação bem planeada. vi-os regressar e entrar pela porta de trás. a da frente estava fechada pelo avesso.

ne gachez pas notre pourriture

nous sommes les enfants…
nascidos num país de fábulas
que as nossas avós ainda contavam
à luz de candeeiros a petróleo
enquanto o vento uivava lá fora
e a chuva batia nas vidraças

nous sommes les enfants…
que criaram um país de fábula
que é um pano sujo e escuro
que não sabemos como desenrolar
à frente dos olhos dos nossos filhos

nous sommes les enfants…
que rodopiam na umbria das fábulas
enlouquecidos pelo movimento do carrossel
que atordoa com borrões de luz

e gritamos

não apodreçam a nossa podridão!